Caloteiros, Manhosos e Feios

O caro leitor deve estar a estranhar este bizarro título. Mas prometo que no fim vai compreender. Não, não é nenhum “remake” do famoso filme do italiano Ettore Scola: Feios, Porcos e Maus. Embora a história que lhe vou contar muito se assemelhe, sobretudo na amoralidade e indecência de alguns comportamentos, não tem metade da graça e pode até ter um fim muito triste.

Era uma vez um humilde e trabalhador casal, o António e a Rosalina, juntos têm uma filha encantadora, a pequena Maria (tome em atenção as iniciais). O homem tem uma vaca que dá leite e a mulher lava e passa roupa para fora. O rendimento familiar vem em parte do trabalho árduo de alimentar o animal e do leite que este dá e que é vendido para várias casas de família, umas mais burguesas que outras. A outra parte do rendimento da família vem da lavagem quotidiana da roupa que estas mesmas famílias entregam e que retomam branca e engomada.

Acontece que uma destas famílias, a mais burguesa de todas, ao estilo esquerda espumante, após a súbita morte do calvo patriarca é agora encabeçada por um herdeiro malvado. Este novo inquilino do paço teima em pagar apenas o que entende que quer pagar. O pobre do leiteiro e da sua mulher desesperam pelo justo pagamento que tarda em chegar. A vaca precisa de cuidados e a lavadeira não ganha para pôr comida na mesa. A situação agrava-se ao ponto da débil economia familiar estar ameaçada, enquanto isto, a burguesada pavoneia-se na capital com roupa lavada e de barriga cheia.

O esforçado leiteiro tem tentado apelar à compreensão do trambiqueiro herdeiro, mas sem sucesso. Além disso, tem mantido as entregas de leite e lavado a roupa da fina família, pois tem muita consideração e respeito pelos filhos mais pequenos da casa que não têm culpa do comportamento irresponsável do pai. Perante os pedidos e a insistência do casal, o herdeiro faz orelhas moucas, solta os cães e diz nada dever ou haver... qual mago (onde é que eu já ouvi isto?), as contas pura e simplesmente desaparecem.

Para não pagar, o ardiloso chefe de família encontra sempre uma justificação. Com uma enorme desfaçatez diz que o leite é caro, e afirma até... ser branco de mais. Acrescenta que não gosta da cor da vaca, preferia uma vaca cor de rosa. A do leiteiro é cor de laranja... pouca sorte. Quanto à roupa que entrega suja e recebe imaculada, diz não gostar do cheiro... diz que cheira muito a limpo. Acrescenta ainda que o sabão azul que a lavadeira usa não é do seu agrado, deveria usar sabão vermelho... mas mais claro.

É um triste fado, esta vida de quem trabalha e não recebe, e para mais com desculpas de mau pagador. Ao fim do dia, à hora do jantar, quando o leiteiro reúne a sua família para uma parca refeição, ouvem-se os lamentos da triste mulher que diz estar cansada de trabalhar e de nada receber do herdeiro forreta e que vai deixar de lhe lavar a roupa. Também o íntegro pai de família se queixa, dizendo: leite oferecido é leite perdido. Nas suas conversas, com receio de represálias da poderosa e intratável família usam um nome de código... chama-lhes em surdina CMF... a abreviatura para Caloteiros, Manhosos e Feios (claro que não se aplica aos filhos). Esta é uma história triste, mas quero acreditar que o final, será um final feliz. Para o bem do António, da Rosalina e da Maria e das restantes famílias que servem, espero que seja rapidamente reposta a justiça e saldados os valores indecentemente apropriados pelo herdeiro.