Stayaway cómid

No meu telemóvel ninguém toca. Não toca que eu não deixo. E mesmo que toque, não consegue aceder.

Tem código, leitura digital e ainda tem que reconhecer a carinha. Não há hipótese. Isto para além de ter uma película que neutraliza os espiões e só permite ao usuário a correta e eficaz visualização do ecrã. Era uma vez aquele amigo da onça que deitava o olhinho. O outro que metia o bedelho. Acabou! 

Bem, a minha mulher também tem acesso. Não sei como! Mas tem. Volta e meia sou chamado a depor em sede própria. Sempre por causa de fotografias de senhoras carenciadas que nem conheço. Mulheres sem roupa que até dão dó. Ela, como pensa que são minhas amigas, não descansa enquanto não me aborda. Costuma começar por um “queria perguntar-te uma coisa”. Mentira. Jamais acreditem nisso. Nunca é só uma coisa. São inúmeras. E por vezes repetem as perguntas. Cruzam respostas. Esmiúçam as nossas reações. Forte aquele que, mesmo estando inocente, não cai na tentação de assumir as culpas. Muitas vezes até o fazemos para proteger amigos. Salvar casamentos. Sei lá...

Agora foi o Primeiro Ministro a achar que também devia ter acesso ao meu telefone de bolso. Se ele ainda fizesse coisas que a minha mulher faz, eu ainda pensava duas vezes! Mas só porque sim?! Nem pensar! Ainda por cima eu detesto que me imponham coisas. Dificilmente faço alguma coisa obrigado. A não ser que reconheça algum motivo de força maior. E o stayaway covid não é o caso! Que me interessa ter essa aplicação? Que vantagens me confere? Saber onde andam os infectados? Se estou perto de algum deles? E se eles forem positivos e ainda não souberem? E se souberem e não se tiverem registado (sim, até há bem pouco tempo só 116 se tinham “assumido”? E se souberem e se tiverem registado, mas tenham deixado o telemóvel em casa? E mais tantos ses a que vos vou poupar... No fundo, o ideal era que o vírus tatuasse automaticamente na testa de cada infectado #stayaway covid e se fizessem acompanhar por uma aparelhagem de alta potência com o som da marcha fúnebre dos 4 negros. Aí sim, a malta poderia andar tranquila. Como não, há apenas que considerar toda a gente como covid positiva e proteger-se.

E se querem mesmo fazer aplicações úteis, façam uma #stayaway cómid. Sim, de comida mesmo. É que eu já não sei mais o que faça. Exercício está fora de questão pois se um jogador aos 35 já é considerado velho e dizem que não se mexe, eu com a mesma idade é que vou desatar a parecer um maluquinho apressado sem destino? Não vai dar... Então marquem os obesos! Os contagiados com uma vontade incessante de comer. Aqueles que só trituram porcaria. Essa gente é uma péssima influência. É uma arepa aqui. Uma espetada com flor ali. Um hambúrguer acoli. Um bolo de mel acolalém. E o ponteiro da balança parece que leva lume. A sério. Eu sei do que falo! Já tive quase 100kg. Não podia entrar em alguns elevadores com mais meia pessoa. Depois perdi 30 mil gramas! Parecia doente. Enfiado. A minha avó (que Deus a tenha) mandava-me curar vezes sem conta. Coitada. Já não a podia ver assim e lá voltei a estragar-me. Decidi ficar pelas 5 arrobas (calma, eu traduzo 5x15=75). Eis senão quando nos cai esta pandemia em cima e eu me dedico ao ócio e bom viver. Ganhei balanço e ia lançado para os 3 dígitos. Fui obrigado, pelas roupas, a travar a fundo e tenho tentado resistir, mas volta e meia lá aparece um gordo que me desencaminha. Eu sei que sou fraco. Cedo com facilidade. Por isso peço. Pai! Afaste de mim quem (contaminado ou rechonchudo) me quer mal... Amén. E seja o que Deus quiser.

Já agora afaste também a imunidade dos deputados. Esta semana foi negado (pelos mesmos, quem mais ia ser?) o levantamento da mesma de um deles. O crime não era assim tão grave quanto isso. Era apenas por alegada propaganda em dia de sufrágio. Coisa pouca. Eles passam a vida nisso. O colega só fez o sacrifício de nem tirar dia de folga. Há gente assim. Que adora o que faz e não se vê parada. Mais um exemplo disso é a proposta, de uma deputada não inscrita, para a alteração do Código de Trabalho, apresentada na Assembleia da República. Propõem-se sete dias para assistência inadiável e imprescindível ao animal de estimação e um dia de luto pelo falecimento do mesmo. Não vejo mal nenhum. Só me vai é atrapalhar o mês de dezembro todo. Para além do papagaio que o meu pai tem em casa estar sempre a tossir e eu já ter marcado consulta em 3 especialistas diferentes para ouvir várias opiniões, ainda tenho os 2 porcos para matar. E eu que já me afeiçoei tanto a eles? Vai custar-me imenso, por certo. Não sei se um dia vai chegar para me recompor, mas pronto. Sempre é melhor que nada.