Do feitiço ao feiticeiro

Diz o ditado que, às vezes, o feitiço volta-se contra aqueles que se armam em feiticeiros.

E o tempo encarrega-se de dar razão a esta sabedoria popular. Hoje diz-se. Amanhã paga-se.

São os que, estando na oposição, contribuíram para lançar mantos de suspeição sobre toda a classe política e sobre os autarcas em particular. Sem olhar às dificuldades e aos apuros próprios do exercício daquelas funções.  Cotizaram para o descrédito público que deriva dum sistemático preconceito promovido na comunicação social e hoje agravado pelo desgaste das democracias, pelo populismo e pela descarga tribalista nas redes da Web.  Tudo isso vai sendo tolerado, como se o julgamento público fosse o preço obrigatório a pagar pela Liberdade, à conta da investida demagógica dos extremistas, à esquerda e à direita.

Na Madeira houve, e ainda há, uma particularidade. O Partido Socialista, pelo facto de nunca ter sido poder regional e só ocasionalmente maioria numa ou outra câmara, tomou também o vício do extremismo. Vestiu a capa do populismo e da demagogia. Contribuiu para esse peditório. Anos a fio. Passou décadas a acusar o PSD de forma despudorada, como se de um partido de protesto se tratasse. Um vício que ainda guardam, na presunção esquerdista de que são os únicos e imaculados fiéis depositários da humildade, da bondade ou seriedade pessoal e política. Uma espécie de guardiões da ética republicana que dizem dimanar do Largo do Rato.

Quando, em 2013, ganharam câmaras municipais, num primeiro impulso, o vício continuou. Foi um abrir de gavetas a atirar os ditos esqueletos cá para fora. E, se não havia, inventava-se. Foi um divertimento mediático. Um pagode na comunicação social amiga. Só que todas as festas têm um fim e os folguedos socialistas não são particularmente conhecidos por terminarem em tons cor-de-rosa.

Por isso, agora que quatro câmaras socialistas estão a ser alvo de investigação judicial, não venham armar-se em vítimas. É apenas o feitiço a virar-se contra o feiticeiro. É um cartão de boas vindas ao arco do poder. E a procissão ainda vai no adro. Há a presunção de inocência, concordo. Há também a possibilidade de se tratar duma investida política, o tempo dirá. E nisso os socialistas foram e são especialistas. A inquirição feita a partir de Lisboa, deixa interrogações. No fim, pode ser tudo arquivado, mas fica a lição popular de que há quem se veja obrigado a beber do próprio veneno.

No caso de Machico, não é só o feitiço contra o feiticeiro. Há quem fale mesmo em castigo. Por causa do não feriado do Senhor dos Milagres. O povo diz na sua sabedoria intuitiva.

Como se já não bastasse terem engolido o sapo duma dívida escondida de três milhões e seiscentos mil euros à EEM e que agora o tribunal obrigou a Câmara a pagar com juros de quatro por cento.

Como se não bastasse o engulho de estarem a fazer aquilo que acusaram o PSD, aprovando a contração dum empréstimo a longo prazo, vinte anos, de quatro milhões de euros (com juros) para reparação de estradas que deixa de fora a freguesia do Santo da Serra só porque não é socialista.

Vem agora esta do tribunal. Uma investigação por suspeita de aldrabice nas contas e nos pagamentos! Mas afinal! Como é que estamos! São pecadores, como todos os outros! Definitivamente deixaram de ser os anjinhos imaculados que iam pôr toda a gente na ordem. Lá se foi a apregoada virgindade. Tão rápido.

Emanuel Gomes escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas