O primeiro ano e a galinha do vizinho

A coligação

O primeiro Governo de coligação na Madeira assinalou na semana passada o seu primeiro aniversário. Foi um tempo dividido em duas partes. Uma preenchida com as dificuldades de uma coligação inédita, outra ocupada com a gestão da pandemia.

Na primeira metade, sentiu-se a pressão política. O descontentamento do PSD – obrigado a ceder duas Secretarias e a presidência da Assembleia – foi quase tão grande como o contentamento do CDS. Houve alguns arrufos, atropelos e competências sobrepostas. Mas também houve o engenho suficiente para ultrapassar esses obstáculos. Mesmo no caso da Saúde, que tanta polémica gerou.

Até que veio a pandemia. E o que prometia ser um tempo de alguma instabilidade política acabou por ser exatamente o contrário. Ou seja, a pandemia esbateu diferenças e deu um foco ao Governo. Tem sido assim até agora, com natural peso para o presidente e os titulares das áreas da Saúde, da Economia e das políticas sociais.

Enquanto Albuquerque marcou pontos pela determinação assumida em momentos difíceis, o secretário de Saúde centrou-se na luta contra o vírus. Já o vice-presidente e o secretário de Economia criaram condições para ajudar as empresas a manter empregos e a secretária de Inclusão ficou com a missão de distribuir ajudas às pessoas. Um trabalho em rede que tem dado resultados.

O Orçamento

A cena repete-se quase todos os anos quando se discute o Orçamento de Estado. Até podem mudar os protagonistas em Lisboa ou nos Açores, mas a Madeira – que não conhece alternância – ‘sabe’ que os Açores é que estão bem. Os Açores é que recebem mais do que nós e têm tudo de mão beijada.

Na verdade, os madeirenses que regam esta ideia não querem saber da situação do outro arquipélago português. Não querem os problemas da governação de nove ilhas. Nada disso. Apenas querem o mesmo dinheiro que recebem os Açores. Ou mais!

Esta teoria rebuscada assenta naquele ensinamento secular de que a galinha do vizinho é sempre melhor do que a de casa. Pode ser velha, dura e esquelética… mas é melhor. É do vizinho e é melhor. Ponto.

A simplicidade com que esta pequena inveja é alimentada quase deita por terra os argumentos válidos que a Madeira deve apresentar a seu favor junto do Estado. Mas, para isso, é preciso trocar a guerrilha das montanhas pela diplomacia dos gabinetes.

É preciso começar pele princípio. E isso implica perceber por que razão a Madeira recebe menos do que os Açores, o que está explicado na lei que foi aprovada no tempo em que os partidos da coligação de cá eram os mesmos que estavam no Governo lá. A questão foi tão pacífica que passou como água na ribeira. Sem espinhas.

Então o que mudou agora? Mudou a conjuntura. O Governo de Lisboa reage com desdém aos protestos de cá. E o Governo Regional voltou à agressividade. O caldo entornou-se e perdeu-se a galinha de uma forma infantil.

E, assim, entre a pandemia e o regresso da guerra contra Lisboa passou um ano mais preenchido com a gestão do que com a governação, como acontece com todos os Governos.

Um dia, quando acabar a pandemia, será tempo de voltar a governar.