Culambismo ou a arte de saber viver

Numa crónica deliciosa, Miguel Esteves Cardoso trouxe à ribalta o conceito de culambismo e conclui que: "Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês". E recorre-se a este indigno anilingus por medo e o medo guarda a vida ou porque compensa. Ou porque alguém o impõe ou fomenta no seu exercício soberano. Quem está em posição de poder, lato sensu onde haja uma qualquer manifestação de comando, bastas vezes convive mal com a crítica, mesmo a construtiva e assertiva, preferindo uma atitude de inofensiva adulação. E os matizes são vastos e variados. Há os pobres lambe-botas do temor reverencial.

Há a horda de lambe-cus, ostensiva, desavergonhada e nauseante, sempre pronta a concordar, saciada pela migalhazinha compensadora do seu engraxamento descarado ou a sua fiel expectativa. Há os culambistas mais reservados e matreiros que se limitam a um silêncio aquiescente, de olho na oportunidade de oiro.  Há os culambistas que putativamente discordam na esperança de serem adoptados, do tipo se não podes com eles afronta-os suavemente para te juntares a eles. E até há os culambistas jogadores que se digladiam por minudências para intencionalmente fazer o jeito de dissimular o que verdadeiramente importa. Todos satisfazem a vontade de quem, sentindo-se dono da razão e da verdade, não admite opinião diversa ou contrária, ainda que nesta possa estar a luz. A crítica afronta, confronta e por vezes deixa a descoberto a fragilidade de mãos cheias de nada. É mais seguro e reconfortante dizerem-nos que sim, ainda que hipócrita ou falsamente, mesmo que o empoderado vá nu. E quanto mais despido vai mais o confronto o belisca. A postura do culambido é proporcional à sua qualidade e valor. O culambismo anda por aí na política, na governação e na oposição, nas empresas, nos convívios pessoais e profissionais e até nas redes sociais, porque desse salivar indecoroso fica muitas vezes dependente uma promoção, um prémio, um jeitinho, uma pindérica ascensão social, uma amizade conveniente. E nessas lambeduras esvai-se o mérito, a oportunidade, a bondade, o engenho e a arte das gentes e dos jogos de poder transformados num reles e estagnado seguidismo. Escusado será dizer em que isto tem transformado a sociedade lusitana e o futuro que nos aguarda.

Mas a docilidade da bajulação tem um reverso perverso. O gajo porreiro, interesseiro ou amedrontado que se apronta a dizer que sim a fulano, é o mesmo gajo que dirá sem rodeios que sim a beltrano, logo que este se sobreponha em interesse pratico àquele. Porque o escudeiro porreirista e manteigueiro não tem horizonte, espinha dorsal ou lisura que não seja um mero naco de pão ou de posição. São os que hoje te dão a mão e amanhã o punhal no coração.

Dos culambistas trambiqueiros e dos culambidos deslumbrados não rezará a história, muitos servindo unicamente para fazer número e de moço de recados para ideias gastas. Por mim prefiro escutar a opinião que não agrada, não conforta, não apazigua, mas pode ter atrás de si, desassombradamente, a razão ou o bom senso.

Às vezes estamos tão embrenhados na caixa, orgulhosamente sossegados pelo timbre venenoso dos engraxadores, que não ouvimos as vozes assertivas nas cantinas das empresas, nos serviços, os burburinhos contidos nas ruas, nas tabernas, nos mercados, a voz do povo que é a voz de Deus. E o povo na sua eterna sabedoria está-se a borrifar para as caixas e para os jogos do culambismo que não lhe enchem a barriga.