Mestre Ramos, o artesão de cestaria

Já algumas vezes vos falei de pessoas que, embora não fazendo parte das minhas relações mais próximas, por alguma razão, passaram a ser presenças registadas na minha vida.

É o caso do Sr. Ramos, ou Mestre Ramos, de quem hoje vos falo. Habituei-me a encontrá-lo em cada retorno à Ilha do Porto Santo. Cruzávamo-nos quase todas as manhãs, quando atravessava a promenade com o meu cão, durante o nosso passeio habitual. Por essa hora, o Sr. Ramos, andando pelo declive da duna que separa a promenade da praia, colhia rebentos de canavieira. Selecionava-os sabiamente com o grau de flexibilidade adequado aos cestos que, mais tarde, as suas mãos entrelaçariam. Os anos corriam e, porque os nossos rostos se tornaram familiares, passámos a cumprimentar-nos, com um cordial desejo de bom dia. Ou melhor; para dizer a verdade, suspeito que o mestre artesão não me reconheceria se eu não trouxesse pela trela o meu fiel Sebastião, que se punha a abanar a cauda mal o avistava, deixando-o de sorriso aberto com a manifestação de reconhecimento canino.

O Sr. Ramos era uma figura que não se confundia com outra. Sempre vestido de forma clássica: camisa arrumada dentro das calças de tecido, cingidas à cintura com um cinto de couro. Calças de ganga ou T-shirts foram modernices que nunca o conquistaram. Tinha o corpo delgado e flexível como o de um bailador. E bailava. Bailava nos arraiais de verão com o seu corpo ágil e sem idade, ajudado pela leveza que lhe incutia a música e talvez também a desinibição servida num copito de vinho ou cerveja bebido com os amigos. Junto ao palco, bailava, sorria à multidão e incitava-a imitá-lo. Na manhã seguinte, lá estaria por entre os renques esparsos de canavieira que subsistem aos rigores da seca e ao bafo salgado da maresia, escolhendo o material para o fabrico dos seus cestos. Uma vez, perguntei-lhe se me faria dois, em tamanho reduzido; uma reprodução miniatura dos açafates com que os nossos avós iam ao mercado. Disse-me que sim. Combinámos o modelo, a dimensão e a data de entrega. Tudo se cumpriu sem percalços. Paguei-lhe o que me pediu, sem regatear, porque era de arte que se tratava.

Certo dia cruzámo-nos no local do costume, mas um pouco mais tarde. O Sr. Ramos estava sentado num dos bancos colocados ao longo da promenade. A um lado, tinha pousado um pequeno feixe de canas e, do outro, um pacote de bolachas que ia comendo, intervaladas com goles de leite que bebia diretamente do pacote. O Sebastião, velho, lento e tão sem apetite que me obrigava a malabarismos de gulodices para convence-lo a engolir qualquer coisa, aceitou com de bom grado as bolachas que o Sr. Ramos lhe estendeu. Mestre Ramos ficou tão alegre com a atitude do cão que, temi, lhe daria todas as bolachas, não tivesse eu impedido. Nenhum de nós suspeitava então que aquele seria o nosso último encontro. O Sebastião partiu na primavera e, neste outono, já não encontrei o Sr. Ramos. Indagando, disseram-me que havia falecido há meses. A promenade do Porto Santo ficou mais vazia. Morreu o artista e levou consigo o saber da sua arte. Os meus cestinhos, agora bem mais valiosos, serão na minha casa, por muito tempo registos físicos da memória daquele artesão com ar de bailador.

Às vezes, gosto de imaginar que talvez o meu querido cão tivesse ido recebê-lo de cauda a abanar, e agora se sentem ambos num banco de uma qualquer promenade do paraíso a saborear bolachas com leite.