O Pão nosso de cada dia

Hoje, dizem os calendários, é dia dedicado ao Pão e porque pão deve ser motivo de partilha, vou subdividir este escrito em três pensamentos diferentes. Diferentes, mas interligados pelo alimento mais consumido no mundo. Alimento que evita fomes e conflitos, origina sentimentos de amor e solidariedade, mas também cria cupidez e ganância.

Pensamento 1

Para começar, um provérbio chinês, um pedaço daquela sabedoria dos orientais, nascida da meditação e da paciência: “Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com um pão e, ao se encontrarem, trocarem os pães, cada um vai-se embora com um.

Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com uma ideia e, ao se encontrarem, trocarem as ideias, cada um vai-se embora com duas”.

Pensamento 2

E porque pão é partilha e amor, a história do casal que tomava o café da manhã no dia de suas bodas de prata.

A mulher pegou num pão, cortou-o cuidadosamente e passou a manteiga na côdea do pão entregando-a ao marido, ficando com o miolo pensando enquanto o olhava: «Sempre quis comer a melhor parte do pão, mas amo demais o meu marido e, por 25 anos, sempre lhe dei o miolo. Mas hoje quis satisfazer meu desejo. Acho justo que eu coma o miolo pelo menos uma vez na vida».

O homem pegou no pedaço de pão, olho-o por um momento, abrindo um sorriso: «Muito obrigado por este presente, meu amor… durante 25 anos, sempre desejei comer a côdea do pão, mas como você sempre gostou tanto dela, jamais ousei pedir!»

Pensamento 3

Mas, como tudo na vida, também o pão tem o reverso da medalha.

Hoje uma nota oficial de uma escola, não importa de onde nem de que escola, fruto de um tempo que estamos a viver, fez soltar esse reverso. Estamos num tempo que contraria todos os conceitos que vimos ensinando, incutindo, há séculos no espírito dos nossos filhos. O espírito da partilha e da solidariedade e que um ser, que cabe aos milhões na cabeça de um alfinete vem contrariar. Colocar de lado. Atirar para o lixo, sei lá, criar para o futuro, conceitos de apropriação, de posse, de empoderamento, de egoísmo.

«Nos termos da alínea b) do Nº 2 do artº 28 do Estatuto do Aluno (…) “considero uma atitude muito grave a atitude do aluno (…….) pelo facto de estar a partilhar lanche com os colegas numa altura em que todos estão informados pelo que isso coloca em perigo o bem-estar de todos (…)  decreto a aplicação da medida disciplinar sancionatória de suspensão de um dia da frequência das actividades lectivas».

Independentemente dos cuidados que devem e têm de ser tomados, da justeza ou não da medida, fica como tema de reflexão um desejo que, penso, é de todos nós: que atitudes destas sejam, tão só, frutos de um tempo passageiro, que não quebrem, nos jovens e adultos do futuro, o conceito de partilha, de solidariedade, de ajuda, que não venham a ser, no futuro “O Pão nosso de cada dia”.