Sempre e com todos

Estamos sempre a aprender, é verdade, é a maior das verdades. Mas penso que além do advérbio, deveríamos também introduzir o pronome indefinido “todos”, pois devemos aprender sempre e com todos. Na minha modesta opinião não devemos ser demasiado selectivos com os nossos mestres, pois eles podem surgir de qualquer lado e em qualquer altura.

Eu ainda sou do tempo em que o que se aprendia em casa, não se esquecia. A voz austera do meu pai e o chinelo pertinente da minha mãe indicaram o caminho certo. O caminho do respeito, da verdade, da justiça e do discernimento foi trilhado muito cedo e ainda hoje, e já sem chinelo, procuro honrar este legado e passá-lo aos meus filhos, modéstia à parte, espero ser tão bem sucedido como foram os meus pais, obrigado.

Ao olhar para trás e regressando à minha infância, à memória vem imediatamente a Professora Alice, uma graciosense com olhos claros e de régua sempre pronta. Aprendi com trabalho, rigor e exigência. Levei reguadas? Claro que levei, nunca me vou esquecer de um ditado em que o título do texto era “A matança”. Na altura em que o politicamente correcto não imperava, falava-se da matança do porco, mas à conta de alguns erros quem “grunhiu” fui eu. Tenho muitas dúvidas se o Amílcar que sou hoje, seria o mesmo sem a Dona Alice, obrigado.

Claro que depois da primária vieram também outros professores, e foram muitos, desde o preparatório à universidade. Uns bons, outros menos bons, mas em abono da verdade e não desfazendo (como diria a minha avó Laurinda, com quem também aprendi muito e igualmente com alguns episódios de chinelada), formaram-me e deram-me um conjunto de ferramentas que ainda utilizo. Com alguma injustiça para a maioria, lembro-me sobretudo dos muito bons, professores absolutamente extraordinários que me marcaram e lembro-me dos (felizmente) poucos professores, muito maus, mas que também me marcaram, todos contribuíram, cada um à sua maneira, obrigado.

Mas a aprendizagem não se faz só em casa e na escola, a profissão que escolhemos também ensina e ensina bem, a maioria das vezes com o exemplo. Neste capítulo considero-me um privilegiado, pois na minha vida profissional tive a honra de aprender com os melhores. Seria muito injusto nomear só alguns daqueles com quem aprendi e ainda aprendo a ser engenheiro, foram e são ainda muitos. Ao longo destes já longos anos e entre obras e projectos, aprendi com engenheiros, mestres, encarregados, arquitectos (sim, estou a falar a sério), experimentadores, fiscais, mestre, serventes, até com doutores (sim, acreditem), a todos o meu muito sincero obrigado.

Apesar da importância dos valores de casa, do conhecimento da escola e do percurso profissional, existem outras formas de nos enriquecemos, outras formas de aprender, e é nesta circunstância que o “todos” se torna ainda mais importantes. Devemos estar sempre despertos e receptivos, o saber, as boas ideias, os conselhos avisados podem surgir tanto do mais erudito como do mais simples dos interlocutores. Esta semana, no final de uma acção de limpeza de “monstros” e verdes no Porto Santo, um cantoneiro indignado pela falta de respeito das pessoas dizia-me com aquele moroso e característico sotaque: “Sr. Engenheiro, eles levam dez anos com o frigorífico na cozinha, e não podem esperar dois dias para o irmos buscar”. De forma simples este homem traduziu cabalmente o comportamento impróprio e egoísta de uns poucos, se calhar mais instruídos, mas muito menos civilizados, obrigado Sr. Graciano.