Vontade política

Orçamento. Tema Obrigatório. Podia dissertar sobre como o “manual de sobrevivência a 2021” escancara a política orçamental de Costa: maquilhar a realidade. Austeridade que é rigor orçamental, investimento que resulta em cativações, e agora aumento salarial que é retirado no acerto do IRS. Centremo-nos na Madeira.

Viemos de um fim de semana em que Costa recusou pela omissão um aval a um empréstimo que nos amparará enquanto não chega a “massa” de Bruxelas. Não iriam gastar um tostão e poupariam ao Estado (pois a Madeira é Portugal) 84 milhões em 14 anos. E tudo isto com (mais) uma desautorização ao Presidente da República. Eis que no orçamento, e ainda não comtemplando as verbas diretas da segurança social, que piorarão o cenário, contemplam um diferencial entre a Madeira e os Açores que ninguém consegue aceitar neste contexto “viral”. Se no caso do princípio da solidariedade (art.48º da LFR) não há grande discussão (os Açores recebem mais 9 milhões devido ao maior número de Ilhas e maior distância face à “metrópole”) já no que concerne à Coesão Nacional (art.49º) unicamente consignada ao investimento, é incompreensível o bónus açoriano de 61 milhões face à Madeira. Primeiro porque a RAM é penalizada por ser boa aluna, e ter um PIB em linha com a média nacional, ao contrário dos Açores que tem dois níveis abaixo. Segundo é a total insensatez do Terreiro do Paço em considerar o ano t-4 como o relevante para aferir o PIB, quando estamos num momento absolutamente excecional. Houvesse vontade e decência políticas e Costa teria estabelecido uma norma transitória, no próprio corpo da lei do OE que tem valor reforçado, a excecionar a fórmula do Fundo de Coesão neste ano e no próximo, sob pretexto de que a maior atividade económica e criadora de emprego na RAM – turismo e conexos, é mais afetada mundialmente pela pandemia. Alguém aceita que o PIB de hoje, esmagado por esta anormalidade pontual, tem algo a ver com o excelente desempenho Regional da última década? E é sobre esses parâmetros infelizmente e involuntariamente ultrapassados que somos medidos? Ainda mais quando estamos a falar de verbas para investimento? Não é o Governo de Costa que diz que o Investimento público vai aquecer a economia e ajudar a sair rápido da crise? Imagine-se que Bruxelas tratava Lisboa como Lisboa trata esta parcela de Portugal?


Mudança de Estratégia

Nas poucas vezes que utilizei o Placard, quando o jogo foi lançado, apendi uma lição: nunca deveria apostar em jogos do Benfica, Marítimo ou da Seleção. A falta de distanciamento emocional sobre o objeto da aposta, retira racionalidade e é fatal para perder os poucos euros em jogo.

Lembrei-me desta memória ao observar, quase uma semana depois, a uma tentativa de justificação política por parte do presidente do PS/M para as buscas realizadas em 4 câmaras, bem como na sede socialista. E fiz a analogia pois, a ser verdadeiro um documento que circula na Net (alegadamente uma das denúncias que espoletaram o caso, com carimbo de entrada na Comarca da Madeira e tudo) um dos visados é precisamente a empresa de comunicação que trata da propaganda de Cafôfo desde há muitos anos. E isso fez com que, ao nível da comunicação e intervenção políticas, Cafôfo errasse como nunca fez, talvez aconselhado pela empresa acossada. Naturalmente que não vou falar dos termos e fundamentos dos factos investigados porque os desconheço. E não sou hipócrita como alguns, que quando é o seu partido o visado alegam o segredo de justiça, a cabala, a politização da justiça. Quando o problema é com os outros, já diz o brasileiro – “é refresco”, toca a rasgar a toga e a bramir contra a corrupção instalada, acusando a torto e direito. Resumindo, não sei se é verdade, e nem me interessa, pois este é o tempo da justiça. O que sei é que em outros momentos de crise essa mesma empresa aconselhou o ex-presidente da Câmara ao recato, quase ao mutismo político. “Deixa passar que o povo esquece rápido”. A intervenção atabalhoada de ontem na Assembleia, relembrando o problema quase uma semana depois, com direito a antecipação de página inteira no fiel Diário, só pode ser lido à luz de um conselho mal dado por uma empresa que se vê, também ela na berlinda. Tempo para mudar?