Gratuitidade do Ensino

O meu percurso escolar fez-se numa época muito distinta da que hoje vivemos, num tempo em que estudar não era para todos. Concluí, e é algo de que profundamente me orgulho, o Curso Complementar de Contabilidade e Administração, na antiga Escola Industrial. Mais do que muitos conseguiram, não por falta de capacidade intelectual, mas por falta de oportunidades.

Nessa época, as portas para o Ensino Superior eram demasiado estreitas e dificilmente se abriam para estudantes de famílias carenciadas, ainda que honestas, lutadoras e trabalhadoras.

Numa época em que os meus pais trabalhavam para que nada me faltasse mas que, ainda assim, a primeira calculadora que tive foi comprada “em segunda mão”, dividia um refrigerante a meias com o meu irmão e as diversões do Almirante Reis eram só para regalo da vista (e ainda assim eram um regalo), o acesso à Educação para além da escolaridade obrigatória era muito limitado.

Não tenho dúvidas de que muitos dos que não conseguiram prosseguir estudos teriam sido muito bem sucedidos e passaram ao lado de carreiras brilhantes, o que não significa que não tenham singrado na vida e que não tenham formado famílias estruturadas, com princípios e valores, à custa de muito trabalho e esforço, depois de se dissiparem as perspetivas de um percurso académico mais longo e, consequentemente, propiciador de uma carreira profissional possibilitadora  de mais e melhor estabilidade financeira.

Ninguém deixa de “ser gente” por não ter estudado. Prova disso é a quantidade significativa de indivíduos com formação académica de nível superior e com uma evidente e manifesta falta de princípios. Na verdade, formação propriamente dita vem do berço e apura-se nos bancos da escola. A formação integral do indivíduo faz-se do conjugar de esforços da família, da escola e da sociedade e o resultado final será tanto melhor quanto melhor for o contributo de cada um dos intervenientes no processo.

A pandemia veio demonstrar, mais do que nunca, que a família e a sociedade precisam da escola e que é importante que todos tenham acesso a ela nas mesmas condições, com as mesmas oportunidades, para que todos partam em igualdade de circunstâncias e para que se alguém se perder no caminho seja por falta de “pernas” e não por falta de bom calçado para a corrida.

É por esta razão que, no Porto Moniz, através da cedência de computadores, se quis assegurar que todos os estudantes têm acesso ao ensino à distância sem percalços e nas devidas condições. Esta medida reveste-se de importância fulcral para que se garanta que ninguém fica para trás por falta de meios.

Quem contesta e critica por criticar argumenta que em quase todas as casas existe um computador, mas de que serve um apenas se, ocorrendo uma segunda vaga da pandemia, poderão existir famílias em que pai, mãe e filhos precisarão deste equipamento para trabalhar?

Quem contesta e critica por criticar alega que os alunos de 5.º e 6.º Ano têm acesso ao tablet fornecido pela Secretaria Regional da Educação, mas o que fará o aluno quando tiver que, em simultâneo, consultar o manual digital, disponível no tablet, e assistir às aulas via plataforma digital?

Quem contesta e critica por criticar alega que a cedência de um computador aos alunos de 1.º Ciclo pode revelar-se uma medida antipedagógica. Assume-se então, por essa ordem de ideias, que as aulas em plataformas digitais perdem ou ganham pedagogia dependendo do facto do computador ser emprestado ou propriedade do aluno?

Na verdade, o apoio à digitalização através da cedência de computadores a todos os alunos do concelho, associado a outras medidas que a Câmara Municipal do Porto Moniz tem vindo a implementar, designadamente transporte escolar e manuais escolares gratuitos, comparticipação da mensalidade da Creche e Pré-Escolar, atribuição de bolsa de estudo para os estudantes universitários no montante de 150 euros/mês e reembolso de  duas viagens aéreas por ano aos estudantes deslocados, encaminha-nos, a passos largos, para a efetiva gratuitidade do Ensino.

Apenas saberemos quem tem mais valor e quem chega mais longe se houver igualdade de oportunidades e se tivermos a certeza de que tudo o que estava ao nosso alcance foi feito para que a corrida não fosse mais penosa para uns do que para outros.

Diferenças, a este nível como a tantos outros, existirão sempre, tantas quantas o sem número de variáveis de difícil controlo, mas é fundamental que se trabalhe para que essas diferenças sejam cada vez mais ténues e para que a meta seja atingida por todos.