O ensino e a investigação: qual a dúvida?

Ao longo da nossa história, grande parte das transformações civilizacionais, dos progressos e das inovações, aconteceram em consequência da necessidade humana em se reinventar, muitas vezes espoletada por períodos de dificuldades e de crises.

Com os desafios impostos pela COVID-19 não está a ser diferente: veio reforçar, para quem ainda poderia ter dúvidas, a importância do ensino e da investigação na vida de todos e, consequentemente, o papel que as instituições de ensino superior (IES) têm num quadro nacional e internacional. Em Portugal, mesmo persistindo um subfinanciamento crónico no ensino superior, há uma crescente valorização da sua relevância pelos cidadãos.

Em tempos de crise, existe uma necessidade imperativa de adaptação. Nas IES, considerando as várias alterações e medidas que foram aplicadas, são evidentes os gastos extraordinários que existiram para a operacionalização da nova realidade de ensino à distância ou, actualmente, para o regime misto. Os equipamentos para realização das aulas através de meios telemáticos, a aquisição de equipamentos de protecção para os espaços comuns, o reforço das equipas e dos materiais de higiene são alguns exemplos mais notórios que encontramos a serem suportados pelas IES, em conjugação com todo o investimento humano que a comunidade académica fez para adaptação de processos e meios para o arranque do ano lectivo. Existe, contudo, ainda muito a fazer num ano lectivo com um vírus que, de acordo com vários especialistas, tenderá a fazer parte do nosso quotidiano durante muito tempo.

Considerando o papel que as IES de todo o mundo, em combinação com empresas, tiveram nos últimos meses no desenvolvimento de soluções para a mitigação dos riscos e na procura, activa, de meios para a resolução desta pandemia, restam dúvidas que o ensino superior e a investigação são áreas que devem continuam a padecer nos sucessivos orçamentos? Podemos ainda considerar que o peso que a investigação têm no nosso PIB deve ser alterado com maior rapidez? Podemos admitir que instituições, como a Universidade da Madeira, devem continuar a ser menosprezadas pelo governo? É claro que não faltam motivos para justificar a importância que o ensino e a investigação têm na nossa sociedade, nas nossas vidas particulares.

No quadro actual, não podemos actuar de forma isolada sobre a nossa segurança e saúde. Temos de pensar também na importância que a investigação e o ensino têm na concretização desses pontos. Devemos entender que é o ensino que nos possibilita, através da qualificação da população, um sistema de saúde mais forte e uma economia mais robusta. Da mesma forma, a investigação, seja pública, privada ou mista, é responsável pelo estudo, análise e criação de todos os equipamentos que têm possibilitado o regresso às aulas, ao trabalho e à vida, com a normalidade possível. Além disso, será apenas com uma vacina, fruto da qualificação da população e do apoio à investigação e ao desenvolvimento, que reencontraremos uma retoma mais adequada das nossas vidas.

Além de entendermos a necessidade de um reforço orçamental para o ensino superior português, não nos devemos esquecer de uma variável importante neste problema, a equidade. Neste contexto, é especialmente grave o facto de continuarmos a aguardar a celebração do contrato-programa com a Universidade da Madeira, na mesma óptica ao que foi celebrado com a Universidade dos Açores no início do ano. Não nos esquecemos: se antes já se mostrava necessário, actualmente é um imperativo pelas razões já existentes e pelas que recordamos.

Todos, estudantes ou não, devemos exigir que as IES possam deter os meios financeiros adequados para protecção da sua comunidade académica e para a prossecução da sua missão enquanto locais para produção e difusão do conhecimento, parte fundamental da nossa sociedade, na construção de cidadãos mais qualificados e na garantia de um mundo melhor. A Universidade da Madeira não pode continuar a representar uma excepção no financiamento do Ensino Superior, nem deve ser tratada de forma diferente da sua congénere açoriana pelo governo da República. Nós, e todo o ensino superior português, merecemos deter os meios adequados para continuarmos a desempenhar o nosso papel e para contribuirmos para o futuro. O nosso e o vosso.