Celebrar a mortalidade

Pela primeira vez, desde que escrevo nestas páginas do JM-Madeira, a crónica que redijo religiosamente todas as semanas calha no dia dos meus anos.

É estranho tendo em conta que esta colaboração já tem mais anos que os bissextos que passaram, seria suposto isto já ter acontecido, mas, pelos vistos, e segundo a minha memória, tal não se sucedeu. 2020 é, de facto, um ano deveras estranho, mais estranho não ter havido a previsão do fim do mundo para esta data, os Maias e Nostradamus desiludiram-me e por isso exijo o dinheiro de volta. Passei por mais 365 dias sem grandes sobressaltos, tirando uma pandemia, mas estas emoções também fazem parte, já que não passei por uma grande guerra, pequena guerra ou alguma guerra que fosse, não estou a contar com aquelas do futebol e do clubismo extremo, e por isso os motivos de festejo são, digamos, modestos.

Confesso que a celebração de um aniversário, como já debitei nas milhentas palavras que compõem estas crónicas, é algo que não me entusiasma, a maioria das pessoas com quem lido considera que estou somente a ser parvo, ou contra a corrente, mas na realidade não considero grande feito com 35 anos, na altura em que escrevo, 36 anos quando esta edição chegar às mãos do leitor, acrescentar mais um ano aos que já tenho na terra. Admito que a partir de uma certa idade será motivo para uma celebração maior e mais pomposa, a partir dos 80 anos será um feito de relevo, dos 90 é ocasião para uma festa durante uma semana, e aos 100 é festa imortal, aos 36 é “boa, conseguiste não fazer m*rda durante 365 dias e estás aqui para mais uma volta ao bilhar grande.”

A minha alergia a festejar o meu aniversário tem um motivo, fazendo uma introspeção consigo perceber isso. É um pouco psicológico, confesso. Não vejo o aniversário como a maioria das pessoas, como o leitor já deve de ter reparado, não encontro motivo de celebração, é mais uma angústia disfarçada, é o lembrar que estamos cá por um tempo limitado, sem muitas perspetivas de alarga-lo. Encaro, por isso, esta celebração como uma lembrança da minha mortalidade, que ao fim e ao cabo, por mais anos que uma pessoa festeje o fim será sempre o mesmo, sem grande esperança que haja uma mudança desse fim, e isso é, para mim, verdadeiramente assustador. Começo a pensar no que tenho ao fim destes anos todos nesta terra, também não acredito que haja outra, e começo a reparar que o legado que deixo para trás é somente uma brisa num dia de outono. Sinto que ao longo destes dias que por cá andei, não mudei nada, ninguém, não criei, não modifiquei, que após sair daqui tudo se manterá igual e não acho que seja algo digno de celebração.

Resumindo, para mim, não celebramos o nosso aniversário, celebramos a nossa mortalidade. Mas, como é óbvio, lá tentarei passar mais 365 dias, sem grandes sobressaltos de modo a estar aqui, entre estas páginas, mais um ano, de preferência com o leitor desse lado e com quem está neste.