A foto da avó

Há um tempo, que coincide com a infância, durante o qual toda a família tenta perceber em nós uma espécie de original do qual somos forçosamente cópia. Creio ser esta uma verdade comum a todos, uma experiência que partilhamos e que nos desenha essa primeira pertença a uma genealogia que nos será, no entanto, sempre mais ou menos desconhecida.

A minha consubstanciava-se em algumas coisas difíceis de provar. Era o caso dos pés. Diziam que tinha os pés da minha avó. Mas já cheguei tarde ao conhecimento dela para tirar a prova. E eu gostaria de ter tirado a prova, porque os meus pés, realmente, sempre me pareceram não serem verdadeiramente meus.

Mas diziam que a minha avó me tinha deixado mais do que os pés. Diziam que na generalidade eu era a cara da minha avó paterna. Durante esses anos iniciais era difícil para mim rever-me nas fotos da minha avó e encontrar-me naquele rosto que me olhava de um tempo fora do meu tempo. Em algumas fotos a minha avó já era demasiado velha, demasiado cega para um mútuo reconhecimento.

Mas uma foto sempre se diferenciou das outras. Nessa fotografia, a minha avó ainda era relativamente jovem e nela comecei realmente a sentir uma espécie de espelho possível. Um espelho que se foi tornando mais claro ao longo do tempo, à medida em que a idade passada da minha avó se ia aproximando da minha idade presente.

Hoje, sei que o meu rosto tem muito daquele rosto. Há um desenho que a genética, no seu jogo de possibilidades, soube de alguma forma transferir para a minha idade atual. O desenho da cara, a forma dos olhos, o nariz demasiado grande para o resto que o sustém. Talvez o cabelo que também se adivinha difícil de domar.

Sempre que olho para essa fotografia da minha avó reconheço uma superfície que me transfere para uma herança que desenhou a minha forma atual. Ao contrário da infância, não me é difícil acreditar que algo de mim veio dali, daquele rosto fotografado a preto e branco. Daquela estranha de mim com quem partilho traços de pele, de olhos, talvez um desenho inteiro de corpo.

Mas eu gostava de saber, de ir mais a fundo, de saber se a capa que me revejo guarda outras semelhanças.

Será que a minha avó tinha a temperatura de minha tristeza, a geografia da minha alegria possível, o desenho exato dos meus passos no mundo e do que eles são capazes de descobrir na caminhada?

Será que os mortos da minha avó ocupavam tanto espaço como aquele que é ocupado pelos meus?

São perguntas às quais as fotografias nunca dão resposta. As fotografias são apenas a superfície de tudo o que escondem. São mais isso do que aquilo que revelam.

As fotografias são como os mortos: ocupam sempre mais espaço do que as coisas que ficam para trás, do que as coisas que sobrevivem. Ocupam um espaço imenso porque já não nos podem responder, ou perguntar. São uma ausência que cresce até ocupar todo o espaço possível.

És parecida com a tua avó, diziam-me. A fotografia, no entanto, apenas revela uma ínfima parte do que ela foi e do que eu sou. Apenas a epiderme de uma imensa pergunta.