Viver em tempos históricos

Parece-me cansativo a todos nós, vivermos em tempos históricos. A história dirá um dia, de uma forma romântica qualquer, que passamos por uma recessão económica e logo a seguir, por uma pandemia global.

Aos nossos olhos, os contemporâneos de uma Segunda Guerra Mundial são heróis, mártires e vilões. Bebemos nas histórias mundiais, ideais de coragem, de Churchill a Roosevelt, de Luther King a Mandela, o distanciamento dos acontecimentos, os factos e a narrativa literária deram-nos exemplos de liderança e coragem em tempos de crise.

O que a história raramente nos conta é que também para eles foi cansativo viver em tempos históricos. O desgaste psicológico provocado por uma crise mundial é atroz, quer para quem lidera quer para quem é liderado. Ninguém escapa. Embora seja difícil compararmos tempos e épocas diferentes, a verdade é que hoje, qualquer crise tem um impacto substancialmente maior nas sociedades. A própria globalização encarregou-se disso. Veja-se a velocidade e distância de propagação de um vírus. Mas mais grave do que o problema em si, pois esse, acredito, será debelado, são as cicatrizes sociais que esta crise deixará. Habituamo-nos a estilos de vida que nada têm a ver com aquilo que se vivia há 75 anos atrás.

Temo uma certa tendência para a “medievalização” dos nossos tempos, não por associarmos à época medieval as pestes e as máscaras “bico de pássaro”, mas porque corremos um sério risco de regredirmos em termos de expectativas. Expectativas de vida tão simples como o direito à felicidade, aos amigos e à convivência, à manutenção de tradições como aquelas que agora vemo-nos quartados de as celebrar, o natal, as festas religiosas, os arraiais, até uma simples despedida fúnebre. Sabemos que todas estas limitações servem para nosso bem. Mas até quando e que sequelas deixarão? Não sabemos. Sabemos que é altura de valorizarmos o que tínhamos, de forma a que, depois disto tudo, valorizarmos ainda mais.

Mas esta tendência de retrocesso tem tido também indicadores que o contrariam, desde logo, para nosso espanto, ter sido este o ano, em que mais jovens entraram no ensino superior. Quanto a mim, um sinal de inteligência dos pais, que adivinhando anos difíceis, preferem ver os seus filhos ocupados a se preparem do ponto de vista académico do que andarem por aí a deambular no desemprego. Este esforço dos pais tem de ser acompanhado e recompensado pelas entidades governamentais, agora, mais do que nunca, sob pena de em 2021, termos um ano antagónico com maior abandono do ensino superior.

2021, sabemos, vai ser difícil para as famílias. Ninguém pode esconder a tendência crescente de desemprego. Será necessária muita criatividade de governos, câmaras municipais, entidades empregadoras e empregados. Estes últimos provavelmente sujeitos a uma maior precariedade. Mas também mais conscientes na hora de negociar, será sempre melhor manter o trabalho, ainda que parcial, do que perdê-lo.

Não estamos em tempos de cada um egoistamente olhar para si. Neste aspeto não gostei de ver a atitude mesquinha e jacobina do governo da república com o não aval ao empréstimo que a região terá de contrair para, exatamente, contrariar o que parece quase impossível. Não deixar que nós, aqui rodeados por este imenso oceano, “morramos afogados”, percamos expectativas e regridamos mais do que o inevitável.

Viver em tempos históricos é difícil, cansativo por vezes angustiante. Mas fazemos parte desta história, estamos no mesmo “barco”. Um dia também seremos lembrados por termos sido uma geração em tempos históricos. Até lá, de cotovelos, de punhos, com máscaras ou distanciamentos, não esqueçamos que todos precisamos uns dos outros.