Rir é o melhor remédio

Quem é que não gosta de rir? Todos sabemos que dar umas boas gargalhadas melhora o humor e alivia o stress. Para além disso, partilhar o riso cria uma sensação de proximidade entre as pessoas, o que em alguns casos facilita a resolução de conflitos e desacordos.

Freud, o pai da psicanálise, considerava o sentido de humor, um dom “precioso e raro”. É um mecanismo de defesa do “Eu”, pois alivia as dores da existência, e que nos torna capazes de rirmo-nos de nós próprios. Mesmo quando a vida (complexa, imprevisível e frágil) mostra-nos a sua imperfeição, vale a pena ser espirituoso. Porque a essência do humor é poupar afetos. E mesmo o uso do humor negro encobre o horror ou uma angústia latente, que teima em permanecer.

O humor e o riso têm sido utilizados na saúde, mais especificamente nos internamentos hospitalares de pediatria e de oncologia pediátrica. Os estudos de Spitz (1887-1974) e de John Bowlby (1907-1974), publicados após a 2ª Guerra Mundial, revelaram que as hospitalizações precoces e prolongadas podem ter repercussões físicas e psíquicas nas crianças, sendo necessário disponibilizar contextos adaptados às necessidades específicas desta população infantil. Além disso, estudos realizados na área científica da psiconeuroimunologia reforçam que o riso, desencadeado por brincadeiras, diminui o stress e induz a libertação de endorfinas, ajudando a fortalecer a resposta imunológica.

Neste contexto, os “Doutores Palhaços” oferecem riso, alegria e brincadeira às crianças hospitalizadas, aos pais e aos profissionais de saúde. Proporcionam um espaço terapêutico para a elaboração das vivências da doença e transformam perceções sobre o ambiente hospitalar, tornando-o menos ameaçador. Estudos demonstraram benefícios na ansiedade (da criança e dos acompanhantes), na dor (durante procedimentos médicos), maior adesão aos tratamentos, além do aumento de confiança na equipa de saúde multidisciplinar.

Em 1998, o ator Robin Williams protagonizou o filme “Patch Adams”, baseado na vida, obra e visão do Dr. Patch Adams (1945-). Este médico americano, atualmente com 75 anos de idade, iniciou nos anos 70, a “arte do palhaço” no contacto com os seus pacientes. Esta prática, organizou-se, posteriormente, num movimento, expandindo-se globalmente. No Brasil, e desde 1991, os Doutores – Palhaços são denominados “Doutores da Alegria”.

Em Portugal existem pelo menos duas organizações com missão semelhante. A mais antiga, criada em 2002 por Beatriz Quintella, é a Operação Nariz Vermelho, uma Instituição Particular de Solidariedade Social, que conta neste momento com 32 doutores-palhaços a intervirem semanalmente em 17 hospitais. A outra denomina-se Palhaços d´Opital, iniciaram a sua actividade em 2013 e neste momento estão presentes em 5 hospitais.

Mesmo hospitalizadas, todas as crianças desejam brincar. É, pois, de louvar esta intervenção lúdica dos palhaços, que é um excelente exemplo, e contributo, de humanização dos cuidados. Minimizam o impacto emocional da hospitalização pediátrica espalhando alegria e colocando sorrisos no rosto das crianças. Porque rir é o melhor remédio para todas as crianças.