Um ano para esquecer

2020 é um daqueles anos em que se depositavam grandes esperanças. Talvez por ser um ano que encerra uma década, que serviu de meta a tantas agendas, como os programas europeus e outras marcas, a esperança neste ano era muita.

Era. A verdade é que o ano caminha rapidamente para o final e a maior esperança neste momento é que passe depressa e sem grandes sobressaltos. Mas não é isso que nos diz a realidade.

A frieza e o pragmatismo da vida aconselham a que se espere por um trimestre ainda mais complicado, sobretudo ao nível económico e social.

Não é preciso ter grandes estudos em economia para se perceber que o drama que vai começando a chegar a tantas famílias tem tendência óbvia para se agravar nos próximos meses.

Não é preciso ter experiência de governação para se perceber que voltamos ao tempo em que cabe ao setor público animar a atividade económica.

Não é preciso estudar muito para se adivinhar que vem por aí um tempo de graves carências que obrigam a novos programas de ajuda, que devem ser feitos com critério e rigor.

E nem é preciso ser muito esperto para entender que ainda vivemos um certo artificialismo suportado por algumas empresas e entidades públicas que não podem aguentar este quadro por muito mais tempo.

Entretanto, a pandemia que se apoderou da sociedade domina o mundo inteiro. A pandemia está claramente acima de nós e impõe uma agenda que não era de ninguém, mas agora é de todos. Essa agenda é feita de adiamentos, de confinamentos e de um certo estado vegetativo em que mergulharam cidades, regiões e países.

Perante a tempestade, as sociedades esperam que passe a tormenta. Mas esse estado apenas aumenta a prevenção, não diminui despesas. Resultado: há claramente menos receita para fazer frente a gastos fortemente acrescidos. E qualquer família percebe que pode aguentar esse esforço alguns meses, mas não o pode suportar todos os meses de um ano.

À conta deste tempo de dúvidas, 2020 tem adiado quase tudo. Ainda no primeiro trimestre do ano começou por adiar os programas de férias, as atividades de grupo, os eventos desportivos e sociais. Foram adiadas as aulas. As carreiras profissionais. Os projetos pessoais e coletivos. Até a governação e a política, em geral, está a transitar para o próximo ano. Todas as metas, todos os projetos novos, quase todas as ideias passam para 2021. E 2020 fica como o ano da paragem, o tempo em que foi tudo absorvido pela pandemia.

Depois do primeiro impacto, a esperança era a de reanimar a vida a partir do verão. Veio o verão e a vida foi novamente adiada. Os aviões começaram a vir, mas em muito menor número. Os navios de cruzeiro ainda não chegaram nem se sabe quando chegam. E assim é difícil dar a volta a uma economia frágil como a da Madeira, muito centrada na indústria do turismo.

Esta incerteza marcada por adiamentos, máscaras, gel e distanciamento social faz de 2020 um ano para esquecer. De forma mais ou menos consciente, a maioria está já a fazer projetos para depois do Natal. Partem do princípio que na Festa ninguém toca, mas nem isso é garantido. Assim como não é garantido que a mudança de ano traga mudança de hábitos.

Se há coisa que a pandemia nos ensinou foi a garantia de que nada está garantido.