O homem que via palavras

“Eu tenho um dom. Sou um homem que vê palavras”.

Ele tinha um dom, diz. Ainda bem que assim pensa – às vezes um dom não é mais do que uma maldição que carregamos, porque estamos condenados à incompreensão dos outros.

“Sim, claro. Toda a gente vê palavras!”.

Não concorda. Toda a gente lê palavras. Parte delas para pensar em coisas, objetos, sentimentos - mesmo que as letras estejam desordenadas consegue perceber o que lá deveria ler. Mas o corpo e o som das palavras têm vida própria. Podemos experimentar o que é ver palavras quando estão numa língua que não conhecemos, só que aí não as lemos com liberdade: angustiam-nos, porque não as controlamos. Não nos são úteis. São, apenas.

“As minhas lentes são as palavras. Há quem fotografe pessoas, paisagens, eu vejo-lhes as palavras”.

Há pessoas que têm dentro de si palavras que não conseguem partilhar. Mas elas existem e precisam de alguém que as ajudem a ver a luz. É um nascimento.

É um dom estranho, talvez, mas é um dom que permite a sobrevivência da humanidade. Porque há memórias que partilhamos que não passam de palavras partilhadas e sonhos de futuro que são ainda palavras em potência, por nascer. Felizmente, há quem as consiga ver, para que não morram. Não há humanidade sem palavras. Sobretudo, não há humanidade sem palavras novas.

Nós passamos, as palavras ficam. Ajudam a dar sentido a essa passagem, que seja capaz de iluminar o céu escuro de alguém, como uma estrela cadente, inspirando o sentimento de algo diferente – é por isso que se pedem desejos, coisas que até não acreditamos ser capazes de fazer, mas que colocamos nas mãos de forças que nos transcendem.

Invejo-lhe o dom, confesso. Estamos entre o que fomos e o que havemos de ser. Nesta passagem, provavelmente teremos de inventar palavras que nos definam – e há quem já as veja.

A palavra pode ser refém de quem procura o poder de narrar e, com ele, a capacidade de domesticar os sonhos, de limitar horizontes. O mundo precisa de mais pessoas com o dom de ver palavras e de as tornar livres, para que nós mesmos possamos ser radicalmente livres, sem as amarras de narrativas impostas e incompreendidas, que se repetem por medo ou por incapacidade.

“Eu vejo palavras”, dizia-me sempre. Em volta das pessoas, sentidos e caminhos que elas próprias demoravam tantas vezes a encontrar. É um dom, acabo por concordar. Também quero ver palavras.