Um arquipélago global

Gosto da ambiguidade inerente ao conceito de «ilhéu». A dualidade habitante de uma ilha/ilha pequena remete-me sempre para a ideia de ilha-humana. Nos tempos que correm, vivemos num mar de incertezas. Nestas condições como nos relacionamos com as instituições que é suposto representar-nos?

Proponho-lhe um pequeno exercício. Classifique as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas. Pegue num lápis, ou caneta. Se não tiver papel pode responder mesmo nas margens do jornal. Se concordar com a afirmação classifique-a como verdadeira, se discordar, como falsa.

a) Os partidos interessam-se pelas dificuldades e pela opinião das pessoas comuns.

b) A classe política da Madeira está interessada em construir pontes com a do Continente e dos Açores (e vice-versa).

c) Na construção do Projeto Europeu as instituições da União Europeias dialogam com as Regiões Autónomas portuguesas.

d) A Diáspora Madeirense sabe como planear o seu regresso.

Se respondeu “Falso” ou “Não Sei” a pelo menos uma das questões acima não tenha vergonha, faz parte de um enorme grupo de cidadãs e cidadãos que pensa que a comunicação com as instituições democráticas não está a correr tão bem como podia.

O facto de haver tanta gente a pensar assim é revelador de dois problemas: o primeiro é que existem barreiras comunicacionais reais; o segundo é que as instituições, a começar pelos partidos. Não se dão conta dessas barreiras e agem como se tudo corresse bem.

As instituições, no geral, e os partidos, em particular, confiam nas suas estruturas de departamentos de comunicação, mas nem sempre estão preparadas para receber o retorno. Podemos até dizer que são vítimas do seu sucesso: como normalmente conseguem fazer passar a sua mensagem assumem que a comunicação está a funcionar. Mesmo quando conseguem avaliar reações, negligenciam a perceção com que ficamos, de que ninguém nos ouve. Como em todas as relações, é normal perder o interesse em ouvir quem não nos ouve.

No entanto, ao contrário do que possa parecer, os partidos querem mesmo saber o que os eleitores pensam, quais os seus anseios, e em que medida é possível responder-lhes de forma a ganhar a sua confiança. Só assim podem ter os votos suficientes para estar em posição de executar os programas que lhes propõem.

A moção setorial que propus ao Congresso do Partido Socialista da Madeira que será discutida e votada hoje na primeira reunião da Comissão Regional eleita nesse mesmo Congresso, aborda esta questão: Como tornar mais fluida a comunicação entre as diversas instituições e as pessoas?

Ao nível local pode parecer simples, há que dar voz às pessoas, por exemplo com a organização de conferências em que o público seja convidado a refletir em conjunto sobre áreas temáticas. Mas é essencial que a conversa não fique por aqui. É necessário procurar novas ideias ou ideias testadas noutros locais. Há certamente medidas interessantes aplicadas noutras regiões do país que talvez possam ser adaptadas à nossa realidade, e uma vez escolhidas fazer perguntas: Será que faz sentido replicá-las aqui? Que erros cometeram, para que não tenhamos de cometer os mesmos para aprender? Quanto demora? Quanto custa?

O mesmo se passa ao nível Europeu: O que podemos aprender com as outras RUP? Ou com as experiências de outros partidos europeus (principalmente os da nossa família política) alinhados com os nossos princípios? Haverá soluções transnacionais, europeias?

Temos ainda de ouvir os nossos emigrantes: Como podemos dar-lhes condições para que apliquem no desenvolvimento da região as competências que, entretanto, desenvolveram? Como podemos dar-lhes condições para que se integrem rapidamente depois do regresso?

Só com esta atitude, podemos criar ligações, reforçar o sentimento de pertença, independe das distâncias físicas e sociais.

Se formos bem-sucedidos, deixaremos de ser apenas ilhéus para sermos todo um arquipélago. Um arquipélago global.