O valor do jogador

Há poucos dias, o mercado futebolístico gracejou-nos com uma catadupa de notícias regionais e nacionais com a seguinte manchete: “O jogador mais rico do mundo é reforço do Marítimo”. Na imprensa, na rádio e na TV, foram várias as reportagens sobre o ingresso no Marítimo de Faiq Bolkiah, extremo de 22 anos do Brunei.

Curiosamente (e não desportivamente), as peças jornalísticas focaram-se unicamente nas excentricidades da fortuna da família do sultão do Brunei, tais como o concerto exclusivo de Michael Jackson para a família e os 2000 carros de luxo na “garagem” do pai.

A contratação do jovem jogador provocou um súbito interesse pela fortuna da sua família e ninguém parou para pensar no lado B de todo esses milhões. Porque se for para relatar sobre questões completamente paralelas à carreira futebolística do jovem, então que se olhe além do brilho da imprensa cor-de-rosa.

O Brunei é um pequeno reino no sudeste asiático, que ganhou a sua independência ao Reino Unido em 1984 e o seu crescimento económico foi largamente feito com recurso ao petróleo e às fontes de gás natural. Tem um parlamento, mas não há eleições desde 1962. O Sultão é Chefe de Estado com plena autoridade executiva. Na prática é também o Primeiro-ministro, Ministro das Finanças e Ministro da Defesa.

No ano passado o Brunei foi motivo de manchetes por outra razão, nomeadamente a alteração do código penal para uma interpretação ultraconservadora da sharia, a lei islâmica. A homossexualidade já era ilegal e punível com um máximo de dez anos de prisão, mas com essa alteração penal, o Brunei preparava-se para poder apedrejar os acusados até à morte. O mesmo para a prática do adultério, da violação, do roubo e do insulto/difamação do profeta Maomé. Depois de várias semanas de contestação internacional - incluindo ameaças de boicotes aos hotéis de luxo que o Sultão detém em várias cidades do mundo - o Brunei deixou cair esta alteração. Atualmente no Mapa da Liberdade da organização “Freedom House”, este país é classificado como “não-livre”, ao só conseguir 29 pontos de um total de 100 em termos de direitos e liberdades.

Esta informação é importante para completar o que surgiu nas notícias de paralelo sobre a família do jogador. Mas para o plantel do Marítimo é algo acessório, tal como o é a festa de aniversário de 2 semanas e milhões de despesa. O que interessa é que o jovem jogador vem para a Madeira precisamente para jogar futebol e para ser parte da estratégia vencedora da equipa dos verde-rubros. E é no campo de futebol que deverá ser apreciado e avaliado – nunca pelos milhares de milhões de dólares do Sultão nem pelo incumprimento de direitos humanos fundamentais no Brunei.


Sugestão da Semana: Na descoberta dos cantinhos mágicos da Madeira, marque uma visita guiada com prova de vinhos na Quinta do Barbusano em São Vicente, idealmente com o pôr-do-sol a deliciar o vale. Uma excelente experiência.