Quantas pessoas já saíram da tua vida?

No passado fim-de-semana quebrei um jejum de mais de uma década e pernoitei na minha casa de infância. Remeti os homens para outro lado e dormi, sozinha, no meu antigo quarto.

Foi um autêntico regresso ao passado, Delorean incluído.

Porque com mais tempo, investiguei gavetas e armários e encontrei um monte de fotografias, não queria ter de dizê-lo, mas sim, antigas (arrepio na espinha, pele de galinha). Nessas fotografias encontrei crianças que já têm netos, pessoas que já partiram, umas morreram, outras não, mas partiram.

Dei por mim a fazer uma cronologia mal-amanhada das pessoas que passaram pela minha vida, as que permaneceram, as que chegaram, as que foram. Como diz o meu marido: “as relações humanas são dinâmicas”, confesso que gostava de ser como ele que lida bem com as saídas e entradas, literalmente, não sou. Custa-me olhar as fotografias, antigas, recentes, de hoje e perceber a quantidade de pessoas que tomava por certa e já cá não está. Algumas naturalmente, outras por capricho, outras também por decisões mal ajuizadas.

No silêncio do meu quarto antigo, com o reflexo do candeeiro a raiar o tecto, o escorrer apressado do fio de água fugido ao fecho do tornadouro, na levada, o par de grilos a bater as asas, no jardim, lembrei pessoas boas, belas, más, ingratas, dotadas de todos os adjetivos do dicionário, que abalaram. Foquei-me nessas, na esperança de que as que estão permaneçam e decidi, tremulamente como a luz duma vela, deixar partir os que não querem ficar e os que não quero que fiquem, sem mágoa, mas com memória, sem rancores, mas sem regressos.

Adormeci.

No dia seguinte, no meu quarto antigo, com um sono também ele regressado a um passado sem preocupações ou temores acordei e abri a janela. Por baixo uma aranha, um carreiro de formigas, três lagartixas acabadas de vir ao mundo e o barulho da levada. Desci, soprei a teia da aranha para me certificar de que a habitante estava viva e fotografei o formigueiro para convencer a minha mãe que no campo também se precisam desinfestações.

Como na vida, como na sociedade, como na nossa cabeça.

As relações são dinâmicas, a vida é um coador, só os grãos importantes não passam por entre a malha e permanecem, tudo o demais é poeira ao vento. Dust in the wind.