A nova vida da Casa da Cultura

A renovada Casa da Cultura de Santa Cruz abriu portas no passado dia 18 de setembro. Para mim, que tenho o pelouro da cultura, foi uma data que me deixou de coração cheio. E deixou-me de coração cheio porque sei, como sabe a equipa que me acompanha, o quanto foi preciso caminhar e lutar para erguer a Casa com a dignidade que ela merece, e com a dignidade que merecem todos os projetos que dentro da Casa nascem e crescem.

Neste percurso de sete anos, nada foi mais paradigmático do quanto foi conquistado do que a realidade que encontrei no primeiro dia em que entrei na também conhecida como Quinta do Revoredo.

O espaço interior estava ocupado por uma exposição de gaiolas com pássaros vivos, enquanto que no espaço exterior existia uma gaiola vazia de pássaros e habitada por mato há muito esquecido.

Tentei abrir as janelas à casa e vi que a degradação era tanta que não permitia esse gesto sem comprometer a integridade dos tapassóis.

Tudo naquela Casa era uma recusa não só da nobreza da sua estrutura histórica, mas também da nobreza da sua missão enquanto equipamento cultural. Os pássaros não eram metáfora, nem sonho, mas apenas o símbolo de uma Casa que não honrava a sua história, a sua missão e que há muito não via uma programação cultural digna desse nome.

Na altura, não tive dúvidas de que era literalmente necessário fazer erguer esta Casa das cinzas, do abandono e da imundície na qual estava mergulhada.

Com uma equipa jovem, sem dinheiro para recuperar o que era necessário, deitamos mão e vontade ao que era viável fazer.

O primeiro passo foi resgatar o espírito da Casa. Surgiu o Projeto Fénix, surgiram as primeiras exposições. Abrimos as portas da nossa humilde Casa com um programa capaz de  honrar o seu verdadeiro espírito e conseguimos o inimaginável: trazer de volta o público, criar novos laços com a Casa.

Aos poucos, a Casa passou de viveiro de pássaros, onde nem pássaros nem casa encontravam a sua dignidade, a verdadeira Casa da Cultura, onde se desenharam outros voos e onde finalmente bateu certa a asa daquela que é a mais elevada criação dos homens: a sua arte, cultura e espírito.

Ali passou a voar a imaginação, o talento, a música, o cinema, o teatro a cultura popular e erudita, o passado orgulhoso e o futuro novo e forte com todos os sonhos possíveis e alguns impossíveis.

Voltou a vida à Casa, com os pássaros no lugar dos pássaros, com a cultura no lugar da cultura, com pessoas e gestos, com traços e cores, com a vontade forte de muitos corações a erguer o espírito antes de erguer a dignidade das paredes e da estrutura.

A Casa também foi, para mim, o erguer de um sonho. Um sonho pessoal, um sonho coletivo. Foi também o erguer-me a mim mesma perante todos os que me criticaram e desdenharam porque era uma vereadora da cultura sem experiência. Tive de erguer-me várias vezes perante as certezas dos outros, o julgamento fácil, a critica aguda e muitas vezes injusta.

Sim, eu não vinha da cultura, não estava dentro do sistema, sabia pouco dos meandros e das suas particularidades. Mas eu sabia que o mundo se faz de sonhos, de histórias, das mais altas criações do espírito humano. Sei que o mundo se faz da cultura sempre renovada e da tradição sempre presente. Sei que o futuro se faz de beleza e de arte. Sei que quero deixar aos meus filhos e aos vossos um futuro onde a beleza seja exercida com a dignidade que merece. E grande parte da beleza desse mundo está na criação artística nas suas mais diversas manifestações.

Sabia e sei que queria que a Casa se erguesse com todas as coisas belas que nela podem habitar enquanto projeto de futuro, de identidade e orgulho.

Sabia e sei que na Casa as coisas podem estar certas: os pássaros nas árvores e o voo de todas as criações humanas dentro da Casa quando recuperada a dignidade e a vontade.

Chegados aqui, vamos continuar a erguer a Casa e a Cultura.