Partilho! Não partilho!

Muito antes de nascermos já partilhamos emoções. Os pais, também eles, partilham os sentimentos com amigos e família sobre a vinda do novo SER.

No hospital, partilham-se presentes e afetos como dádiva ao nascimento.

No infantário as crianças são ensinadas a partilhar o espaço, os brinquedos e o colo da educadora. Ouvem-se choros ou gritos acompanhados de “é meu”, começando a fase do egocentrismo, próprio da idade e do desenvolvimento infantil.

No pré-escolar, nas interações, começam a fazer parte a partilha das brincadeiras em grupo, ensinam-se valores humanos, regras de socialização, de confiança e elogia-se as boas maneiras.

No primeiro ciclo, o dar e o receber poderá ser uma tarefa positiva ou negativa, encarada pelas mais variadas razões. Começa-se a ouvir com mais frequência o “não empresto”, “eu tenho e tu não tens”. Contudo, a partilha continua a existir.

No segundo ciclo, partilham-se balneários, jogos, fazem-se trabalhos de grupo, e com isto temos o reforço do respeito na partilha de opinião dos pares.

No terceiro ciclo, onde as capacidades sociais já estão mais vincadas, partilham-se vivências, amores e desamores.

No secundário, partilham-se decisões mais ligadas a um futuro profissional, à escolha da universidade e ao rumo que se pretende tomar na vida.

Na adultícia, partilha-se casa, intimidade, responsabilidades e os desafios começam a aumentar aos olhos de uma consciência visível. De facto, vivemos de partilha, exceto quando o papel higiénico desaparece das superfícies comerciais. Mas então partilho ou não partilho? Vivo ainda na fase do egocentrismo ou fico vulnerável perante uma situação de alarme e esqueço tudo à minha volta? 

A mente que mente, hipnotiza o ego incapaz de ouvir “Partilha” e passa a escutar “Não Partilha”. Mas afinal, partilho ou não partilho? Para ajudar na decisão aparece o SARS-COV-2, nome pomposo, despindo-nos de comportamentos e barreiras impostas ao mundo. A socialização entre todos é quase impedida. Os avós vão falando com os netos nas redes sociais, os professores deixam de conhecer os rostos dos alunos, as famílias, essas, por sua vez continuam à procura de um equilíbrio entre um tempo real e o lhes é possível. Tudo porquê? Pela reviravolta que o SARS-COV 2 nos “presenteou”.
Há que repensar uma nova pedagogia e acordar os valores humanos. Todavia, o medo de arriscar apodera-se destas transições de mudança.  Partilho, Não partilho?  É o lema da sociedade atual.

Na escola, o que fazemos com os livros da ação social? Partilhamos, Não partilhamos? E no tempo livre na escola? Como é ocupado pelas crianças? Os alunos precisam de espairecer… alguns aproveitam os intervalos de 15 minutos para brincar ao “jogo do diabinho” (jogo da apanhada), enquanto outros formam grupos de conversa. Tocam-se sem se poder tocar, transpiram sem conseguir respirar, deixam de saber lidar com as limitações. E os adultos? Falamos em capacidade de adaptação. De quem? Dos adultos ou das crianças? Desligamo-nos da transparência e passamos a um plano de reajuste de uma nova realidade. Transtornos obsessivo compulsivo (lavar as mãos obcessivamente, p.ex.), irritabilidade, ansiedade, fortalecer o sistema imunitário passando a introduzir suplementos vitamínicos. Sintomatologias depressivas. Problemas transversais. Partilho, Não Partilho. A incógnita que habita em muitos de nós. Recomeçar. Reorganizar. Gerir. Reajustar. Como?