Desculpem crianças

Já pedimos desculpas às crianças? .

Às que já nasceram e às que ainda estão por nascer?

Às que já partimos o coração e às que ainda não o têm?

Às que perderam a inocência e às que ainda não sabem o que são?

Às que destruímos a infância e às que saltaram para a vida adulta?

Às que não sabem brincar e às que não têm nada para brincar?

Não, ainda não pedimos as desculpas necessárias.

Não, ainda não fizemos a nossa parte.

Não, continuamos a ignorar o futuro e por isso a hipoteca-lo.

Não, as crianças continuam sem saber o que fazer e nós sem saber o que ensiná-las.

Andamos às voltas com problemas infundados, causas estúpidas e sem causa moral.

Andamos com as armas, batendo em portas, medindo as paredes e ignorando os pequenos corações.

Perdoem-nos o que fizemos.

Começou tudo como uma pequena diversão, uma fazenda virtual

depois tornou-se num ‘gulag’ real, em que a paciência de discutir foi ultrapassada pela corrida por uma razão indecifrável,

que ninguém sabia o porquê.

Queria ter a resposta para isso,

mas a mesma perdeu-se entre os nossos proveitos,

ou os proveitos de outros que nos amarravam diante de um ecrã.

O ‘homem da limpeza’ conseguiu fazer o seu trabalho,

ficamos vidrados e ficamos como novos,

ao mesmo tempo que eles procuravam inspecionarmos, brancos como um fantasma, começamos a nos transformar.

Desculpem não vos termos ouvido.

Crianças, levantem a vossa voz, regozijem-se,

entrem no comboio que está a passar, o que vai para o reino do nada,

e só por entrarem já estão a divertir-se.

Esperem por mim, ou será um desejo imaginário que possuo,

mas vejo-as a rir e a brincar, muito mais do que alguma vez poderia pensar.

Deixá-las... E desculpem pelo que fizemos.