O movimento dos afetos

Primeiro houve um percurso de quatro anos. O dia inicial de uma viagem. Depois vieram os amigos e a viagem transformou-se numa espécie de regresso a casa.  Uma outra casa, uma outra cidade.

De alguma forma, a nossa geografia foi alterada pelo percurso físico do sul ao centro do país, do norte ao centro do país, do meio do mar ao centro do país, do centro ao centro. A nossa geografia foi sobretudo mudada pelas coisas que de dentro de nós se alteram e amplificam com a deslocação. Há sempre alguma coisa que se desloca com o movimento do corpo e dos mecanismos que usamos para tornar mais célere a chegada. A viagem verdadeira acontece sempre por dentro de qualquer coisa que somos nós em movimento.

O meu movimento trouxe-me outras pessoas e outras cumplicidades que já julgava arrumadas naquela idade de fazer amigos ou de criar geografias familiares.

Começamos por estar unidos por uma meta, uma tese, qualquer coisa em forma de papel que nos fizesse mover o pensamento e com ele construir o sentido de tudo o que nos interpela e que está do mesmo lado da respiração, da nossa mais profunda respiração.

Por essa partilha de sentido, tornou-se quase inevitável a ligação. Uma espécie de ligação à terra e ao que de dentro de nós é a nossa mais concreta definição e natureza.

Quase sem percebermos, foi-nos instalado essa coisa terna e maravilhosa de sermos pertença a um sentir comum. A partir daí, a distância trazia a saudade e a proximidade trazia surpresa renovada de sermos um grupo.

Os nomes deixaram de ser estranhos: a Sofia, a Sara, o Tiago. Mais tarde o Nuno, mas com a intensidade de quem encontra a peça que faltava.

E depois a vida a acontecer-nos, porque a vida não cessa de acontecer. Ao Tiago nasceu uma filha, à Sofia nasceu um amor, ao Nuno, sei lá, devem ter nascido tantas coisas. O Nuno é assim: nascem-lhe muitas coisas e ele faz nascer outras tantas. A Sara tem aquela capacidade de fazer-se casa quando nos aproximamos dela e tem tanto dentro que transborda. Uma casa que transborda. É assim a Sara. Ou melhor, na verdade são assim todos eles. Têm a mão certa para abrir a porta e deixar entrar e se fazerem casa e abraço e tanto por dentro de tudo.

Estivemos meses sem uma presença. Esta semana voltámos a estar juntos para celebrar o facto de a Sofia ter chegado à meta. E estávamos todos tão felizes como se tivéssemos chegado com o coração certo ao lugar da Sofia que é também o nosso.

Sentámo-nos à mesa e brindamos, porque é isso que fazem os amigos. Partilham, sentam-se à mesa do canto e sorriem da felicidade sua e da felicidade dos outros.

Somos movimento, sobretudo de afetos e desta coisa que trazemos por dentro e que se torna a nossa verdadeira natureza. E isto é tanto. (Com dedicatória à Sofia, ao Tiago, à Sara e ao Nuno.)

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas