Morganho

Foi um bico-de-obra naquela noite e ninguém pregou olho. As casas daquele tempo tinham as portas viradas para o terreiro, que depois se abriam de par-em-par para arejar durante a manhã nos dias solarengos. 

O que era um problema, porque no verão havia sempre uma lagartixa afoita que se esgueirava pela soleira da porta acima e nem sempre se deixava ficar embalada pelos raios numa madorna preguiçosa. Não, havia sempre aquela que se aventurava pelos quartos adentro até ser enxotada por uma vassourada de um adulto ou atordoada pelo berreiro de uma criança, que a fazia procurar desesperadamente a saída, entre móveis brilhantes a cheirar a óleo de cedro.

Estes episódios davam sempre para uma mão cheia de histórias. Naquele tempo, em que as casas tinham as portas viradas para o terreiro, pouca coisa não dava conversa para a tarde inteira. Havia sempre quem soubesse de alguém que conhecia outro a quem tinha entrado um bicho desses pelo nariz ou orelhas e que tinha sido o cabo das tormentas para tirar. O que depois descambava em outras conversas de feitiçarias, bruxarias e outras romarias.

Os pequenos arregalavam os olhos, estremunhados, com os contos e pontos acrescentados a episódios de natureza duvidosa, que andavam de boca em boca como verdades absolutas ainda que ninguém tivesse o tivesse testemunhado.

E depois à noite era um aqui-del-rei para a canalha dormir.  Cada barulho era sujeito a interpretações várias. “Já disse para não contarem essas coisas à frente dos pequenos, isto agora vai ser bonito”, resmungava a mãe.

E foi. Nessa noite foi mesmo. O mais novo teimava que havia um bicho no quarto, que ouvia arranhar. A avó falava em assombrações e o pai que queria dormir. Mas ninguém calava a canalha. Revirou-se móveis e o cheiro a óleo de cedro espalhou-se na noite. O bicho parou de arranhar e o pequeno a chorar que era verdade e que ouviu e não era da cabeça dele. Até que, ao colocar as coisas de volta no sítio de origem, aparece um morganho aflito, sem saber para onde se virar. Levou uma vassourada e os pequenos desataram aos gritos com o rato sucumbido ali no quarto. Entre o choro dos mais novos e gargalhadas dos mais velhos, já não havia quem dormisse naquela casa de portas viradas para o terreiro. Aquilo é que foi uma noite. Foram beber chá madrugada fora e houve conversa para a semana inteira, que, dessa vez, se passou de portas fechadas.

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas