O ‘Avante’ do Funchal!

O presidente da Câmara do Funchal anunciou um "Natal Completo", no que respeita às festividades a cargo da autarquia. Com "noite do mercado e tudo", acrescentou, segundo notícia deste jornal.

Bem... este "e tudo", é mesmo tudo, pois “tudo” o que a Câmara contribui nos últimos anos para a "Festa" é precisamente a noite do mercado. A aldeia do Natal, à qual teve a necessidade de acrescentar a sua localização - Largo do Colégio - é uma inexistência confrangedora. Um falhanço que a Câmara insiste em repetir, e que apenas contribui para a "festa" da empresa que a organiza, uma velha e conveniente parceira deste bafiento projeto autárquico. A não ser que o edil esteja a anunciar nas entrelinhas que voltará a repetir a rábula degradante do ano passado, da tentativa de "roubo" das barraquinhas da Avenida Arriaga, para poder fazer visitas diárias de pré-pré-pré-campanha para as autárquicas. Se há um ano já foi confrangedor, nestes tempos caóticos seria o grau zero da irresponsabilidade pública.

Voltamos então ao essencial. A Câmara "ameaça " realizar a noite do mercado. Cautelosamente dizendo que os malvados da autoridade da saúde, leia-se Governo Regional, é que podem impedir a malta de se divertir na festa. E é de uma ameaça mesmo que se trata. Nem que seja ameaça à saúde pública. Todos já percebemos que "isto" do vírus não se vai embora até ao final do ano. Também percebemos que a vida tem de continuar com a maior normalidade possível, desde que observadas as devidas cautelas e precauções. É também sabido que o povo começa a dar sinais de querer baixar a guarda. São muitos meses de recato e o madeirense é festeiro por natureza. Já lhe "tiraram" os arraiais, caramba!... Também lhe vão privar do maior arraial de todos? Parece ser este o degradante exercício mental que os Paços do Conselho pretendem impingir ao cidadão comum, nas próximas semanas. Como já um dia escrevi, vivem nisto. Na necessidade absoluta da guerrilha política, na criação de incidentes, na eterna prova de vida. "Vamos apostar na impaciência do madeirense, e colocar o governo no papel de mauzão", quase consigo ouvir a ecoar do Largo do Colégio. "Isto está mau em termos de intenção de voto e popularidade pública, há que jogar uma cartada forte" deve passar naquelas cabeças. Imaginem a Rua dr. Fernão de Ornelas, a Rua do Hospital Velho até ao liceu, mesmo a Latino Coelho, até o próprio mercado, e a praça do peixe com os cantares. Os madeirenses que desaguam às dezenas de milhar naquelas ruas e que se movem tipo sardinha em lata. Agora imaginem um COVID que teima cada vez mais em por à prova a barreira que eficazmente foi montada no aeroporto. E é ridículo sugerir que um circuito de sentido único pedonal iria prevenir o que fosse. Continuariam a ser demasiadas pessoas, demasiadamente juntas. Basta uma pessoa infetada furar, ainda que involuntariamente, a rede à chegada à Madeira e deslocar-se ao mercado para que milhares de pessoas possam em teoria ficar infetadas. Estamos a falar de 80, 90 mil pessoas, juntas. Já antecipo os próximos argumentos do executivo autárquico bonzinho que quer que o povo tenha um momento de descontração e que a economia se reabilite precisamente naquele dia. “O Governo quer instalar um clima de medo, para manipular as pessoas”. Ou “Se os casos são barrados no Aeroporto, para quê impedir as pessoas de se divertirem?”. Ou ainda “Nas inaugurações e no Rali podem existir ajuntamentos, mas na noite do mercado já não pode”. Este Trumpismo – Bolsonárico a que a Câmara, e o PS na sua generalidade, tem recorrido com cada vez menos timidez tenta menorizar uma situação de excecional gravidade de forma irresponsável.

Não quero acreditar que por pura chicana política houvesse desejos de que as coisas não estivessem a correr tão bem na nossa Região como felizmente acontece, para que pudessem “cair” em cima do Governo. E comparar algumas dezenas de pessoas que se concentraram, e mal acrescente-se, no rali e numa inauguração com uma provável enorme massa contínua de dezenas de milhar de pessoas seria de uma desonestidade intelectual sem nome. Um Avante... a Câmara do Funchal já arranjou a sua festa do Avante!