Maldita cultura

A pandemia que afeta o planeta veio asfixiar, entre outras coisas, a cultura.

Cultura essa que sempre vista, como já escrevi aqui nestas páginas, como o parente pobre da sociedade. Quando nos convém somos todos a favor do prémio que o cantor de opera lírica recebeu em Londres, ou do realizador homenageado em Cannes, ou do pintor que foi distinguido em Paris, ou do motociclista que venceu o grande prémio da Áustria, ou ciclista que conquistou o Alpez D’Huez, ou do atletista que canhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, ou do escritor que fico com o Nobel. O nosso patriotismo vem ao de cima e enchemo-los de homenagens, distinguições, medalhas da ordem d’Avis, etc., durante aquele período de tempo estamos honrados por fazer parte do mesmo país que viu nascer aquela celebridade e andamos por uns tempos de peito cheio a esfrega-lo na cara da concorrência, leia-se os outros países.

Faço agora um parêntesis, como o leitor já deve de ter reparado para mim a cultura não engloba só as artes, digamos que a cultura é tudo o que faz parte da sociedade em que um indivíduo ou coletivo expressa o meio em que cresceu, daí considerar que é uma aberração o desporto estar envolvido no Ministério de Educação e na Secretaria Regional de Educação e não debaixo da alçada da cultura, mas isso é a minha opinião, o leitor que considere o parêntesis fechado.

A cultura em si, não traz proveitos imediatos ao país, é um facto. Não gera os milhões que outras áreas geram, nem empregam a mesma quantidade de pessoas como a saúde, por exemplo, mas não podemos trata-la mal, pois no futuro a única coisa que nos leva para a frente e nos mantém a memória viva é a cultura.

É, por isso, inconcebível a maneira como a mesma tem sido tratado nestes tempos estranhos que vivemos. Uma ministra que sugere a discussão do estado na mesma a tomar um copo à beira-mar, é digna de um sketch dos Gato Fedorento. Os recintos desportivos fechados é uma machadada na fraca cultura desportiva que o país tem, enquanto que as festas e as peregrinações são autorizadas.

Noutros países as coisas tendem a voltar ao normal, isto é, normalizando o que pode ser normalizado, em França, por exemplo, o Tour está na estrada, na Alemanha, os estádios abertos, tudo com as devidas prudências, em Portugal está tudo fechado.

As sessões de teatro reduzidas a meia dúzia de espetadores, os aviões podem vir cheios, até queremos que venham cheios, mas têm a vantagem de quando os passageiros estão dentro dos mesmo só conseguem olhar para a frente. Por acaso sempre que fui ao teatro tinha a tendência de voltar-me de costas para o palco, tenho de agradecer à DGS esse alerta.

Continuamos a maltratar a cultura, continuamos a lembrar-nos dela somente quando ela oferece algo, para de seguida voltar a ignorar. É uma árvore de fruto em que colhemos os frutos, não regamos e estamos à espera que dê sempre fruto.

Eduardo Azevedo escreve
à terça-feira, todas as semanas