…não nos podemos instalar!

O mês de setembro costuma ser o do regresso às rotinas, ao trabalho, à escola, após um período de descanso…, mas este setembro terá de ser um mês, verdadeiramente, diferente nas nossas vidas, na vida de cada um de nós!

Não, apenas, por virtude do atual contexto de pandemia em que vivemos, mas, sobretudo, porque este mundo nos interpela a crescer em graça e sabedoria! Uma graça e sabedoria que faz com que não nos instalemos, que digamos, em cada dia, que “vale mais o caminho do que a estalagem”! E o caminho vai sendo iluminado pela luz da esperança, do esperar por alguém, por homens e mulheres que promovam a Justiça, que sejam obreiros de uma sociedade mais justa e fraterna, que não busquem o seu próprio interesse, mas o do bem comum! E isto é possível e depende de todos nós!

Acredito que cada um de nós é responsável por este “mundo novo”, por dar o melhor de si, por se reinventar, por colocar o seu selo, a sua marca neste projeto da Vida que apenas avança com a colaboração de todos!

Ofereceram, um dia, a um simples homem um reino e ele não queria aceitar, pois considerava-se incapaz para tão grande façanha. Na verdade, julgava que não conseguiria falar tão bem como os demais, considerava – se menos esbelto e, segundo os seus critérios, julgava nem ter grande arte para os negócios… e gostava tanto de guardar o seu rebanho, de continuar nas suas rotinas, de apreciar o céu, o sol e a lua! Acontece que alguém lhe disse, “(…) sabes as nossas gentes precisam de pessoas que cuidem delas, como cuidas das ovelhas do teu rebanho, e que as ensinem a construir ferramentas que lhes permitam pescar e caçar”. O homem lá encontrou forças para sair da sua zona de conforto e foi…, caminhou apaixonadamente com as suas gentes, acompanhado por outros tantos conselheiros, cuidou delas, ensinou-as a construir ferramentas para conseguirem obter o seu sustento, a negociar, sem explorar, a fazerem-se ao largo, a cuidar do mar e da terra, verdadeiros dons. No fim dos seus dias, o povo chorava a sua enfermidade e quando ele morreu o seu povo disse: “hoje morreu alguém muito importante para nós, não por ser um Rei, mas porque foi um simples homem que deu do seu tempo a todos nós e por isso foi Rei”.

Também, nós, podemos ser este Rei, neste novo mundo que agora recomeça, neste mês de setembro, e em que em cada dia há sempre uma nova aprendizagem, uma crítica que nos ajuda a crescer, uma “mão”, um rosto, um sorriso, que nos leva a ver um novo amanhecer e que connosco ri, pula, dança e ajuda a avançar, e em que não há um “eu” ou um “tu”, nem “uns”, nem “outros”, mas antes um nós!

A vida, em que é tão saboroso apreciar a soleira do instante, convida-nos a desinstalarmo-nos, a habitar a realidade, que tão bem parecemos conhecer, de um jeito inocentemente inovador para que possamos alcançar o que ela em cada momento nos pretende dizer. Munidos desta sabedoria saibamos, então, qual o caminho a seguir, sem medo de nos fazermos à estrada!

Digamos como Carlos Drummond de Andrade… “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”…, arrisquemos, caminhemos e não fiquemos na estalagem!

Paula Margarido escreve
à terça-feira, de 4 em 4 semanas