Voltar a contar o mundo

Há muitos meses que não viajava. Não o fazia desde a paragem brusca nas nossas vidas. Foi há meses e já parece que foi há tanto tempo. 

Voltar a empreender a viagem é uma espécie de estranheza familiar. Já nada, na verdade, está exatamente como deixamos, nem sequer as coisas que transportamos no corpo. O sorriso já não se vê. Está amordaçado atrás de faixas com nome de código e níveis de proteção. O nosso sorriso FFP1, FFP2 e FFP3. É quase como os robôs da Guerra das Estrelas, mas com menos graça.

Enfrentamos o mundo com a máscara que escolhemos. Antes também era mais ou menos assim, mas só que agora retiraram-lhe a metáfora e tudo é já só literal, um sentido literal único... A vida sem metáforas tem menos graça.

Bem vistas as coisas, antes também era certa aquela máxima "do todos vamos morrer um dia", mas, de repente, alguém veio lembrar e tornar mais concreta a verdade implícita na frase anterior. Alguém se lembrou de tornar concreto e próximo esse dia. Ou então apenas se lembrou de dizer o que já era uma verdade: hoje pode ser o dia em que vais morrer. O que te ameaça é invisível e nada é muito eficaz para garantir a defesa, porque na verdade nunca houve defesa, apenas a ilusão de que se poderia iludir esse destino. Nem que fosse à força de não pensarmos nele mais do que o necessário. O método até era mais ou menos eficaz. Mas isso foi antes de contarmos os mortos pelos dedos que temos e pelos que não temos.

Nesta nova aprendizagem da matemática da morte, parece que aprendemos de novo que são muitos os que deixam de respirar. Tantos que não temos dedos, nem que se junte as mãos de quem está ali mais à mão.

Perante esta realidade relembrada, lavamos tantas vezes as mãos em água, em álcool-gel. Lavamos as mãos de contarmos os mortos na esperança de contrariar a matemática, de fazê-la enfraquecer, de diluir o que será certo, de dizer "não ainda, não agora." Parece que não conseguimos perceber que a matemática não se assusta com água e sabão, nem mesmo com substâncias mais fortes. A matemática, tendo sido inventada por nós, é uma invenção resistente aos elementos, mesmo às outras nossas invenções. Não nos sabíamos tão eficazes nas nossas criações, mas somos.

Depois de tantos meses, voltei a viajar e a perceber que são tantos de nós com medo, tantos de nós com o código na boca à espera que ele tenha a eficácia pretendida. Por detrás do código e do nome da máscara há um sorriso ou apenas um esgar, mas isso já quase que não se nota. Ninguém quer saber de mais nada a não ser sobreviver.

Lavamos as mãos, não de uma culpa de Pilatos, mas de uma coisa mais profunda que transportamos por debaixo da pele há tanto tempo que deixamos de conhecer. A proximidade tem o efeito de tornar quase irreal o que é certo. Lavamos as mãos a esta morte possível que sempre lá esteve, lavamos as mãos à matemática dos que morrem, vão morrer ou já morreram.

Esquecemos, por momentos, que sempre foi assim. Que a matemática e todas as suas possibilidades sempre lá estiveram.

No fundo, não gostamos que nos recordem o óbvio. E enfrentamos o óbvio com o código em frente da boca, com a distância social, com os antissépticos em riste.

O mundo para o qual voltamos segue bem sem o nosso medo, segue imune ao nosso medo. Sempre foi assim, mas nós gostamos de inventar teorias, histórias de tirar o sono ou de embalar. Nunca deixamos de ter medo. E também nunca deixamos de acreditar em finais felizes, em senhas e santos. Na verdade, nada mudou assim tanto. Só aprendemos a contar com mais precisão. Pelos dedos. Ah, e voltar ao mundo é tão bom. Vamos fazer um esforço para não esquecer isto de contar o mundo. Mesmo que o mundo a que se volta já não seja bem o mesmo e lhe falte tanta coisa, ou lhe falte o essencial.