Queridas, Histéricas e Pedradas - Política e Suspensórios

Há dois séculos, o psiquiatra Cesare Lombroso, em A Mulher Delinquente, a Prostituta e a Mulher Normal, relacionou o motivo da maioria dos crimes com a paixão feminina incontrolável, em consonância com o pensamento de Max Nordau, que, em Degeneração, de 1892 – apoiando-se nos estudos de Herbert Spencer, Charles Darwin e Maudsley –, considerava as mulheres como mais propensas ao esgotamento mental e perda de autocontrolo moral, ao irracional e à histeria.

A pouca estabilidade emocional da mulher, defendida por Spencer e Darwin, serve de justificação aos cientistas da época para a ideia da existência de uma relação estreita entre a psique feminina e os distúrbios mentais, histéricos, revelados por sintomas clínicos.

Daí que a histeria seria um estado “natural” da mulher, como muitos defenderam, inclusive Miguel Bombarda. Baseando-se na ideia da degeneração feminina, o médico tinha como ridícula qualquer tentativa de independência da mulher e da sua elevação até ao homem. A instrução e emancipação femininas teriam como consequência a sua esterilidade e afetariam a evolução, pela falência da sua função social – a reprodutora.

Também Nietzsche, em Ecce Homo (1888), crê estar subjacente nas “belas almas”, como as designa, uma forma de degenerescência, que define como mal-estar fisiológico, sendo a luta pela emancipação e por direitos iguais (que ganhava força na época) um sintoma dessa enfermidade. Sim, porque esta luta revelava para os homens do XIX o espírito vingativo da mulher a querer ganhar, como num título de um livro inglês do século XVIII, a “bloody battle” pelo uso das calças, isto é, do poder. A ideia era repetir a proeza de Petrúquio e domar, amansando-a, a esposa Catarina, como na famosa peça de Shakespeare.

Passado? Não. Os estereótipos e clichés do discurso masculino sobre as mulheres repetem-se quando menos se espera, principalmente quando a posse das calças é ameaçada. A política, espelho do melhor e do pior da sociedade, é a prova disso. Um mundo em que as mulheres têm vindo a abrir espaço por quotas (num mundo ideal, a meritocracia devia imperar, mas a julgar pelo número de mulheres nos cargos mais importantes durante as últimas décadas, se fosse pelo mérito, poder-se-ia concluir que não chegam lá porque são destituídas de inteligência) é ainda pleno de obstáculos, porque é o lugar das calças. Isso nota-se na linguagem usada e no seu impacto na comunicação.

Certos homens, mais zelosos em manter a peça de roupa no lugar, adotam expedientes como chamar as deputadas em plena Assembleia de “queridas”, nomeá-las apenas pelo nome próprio (“Ó Sra. Deputada Hermengarda!” seguido de olhar paternalista-pândego) e reservando o sobrenome para os colegas, ou, como Berlusconi, definir a competência pelo aspeto físico (à Boschi, do PD, explicou que devia ser da direita, porque era muito bonita, e na esquerda só há feias, como se sabe).

Do século XIX, com a cabeça cheia do Lombroso e dos outros todos, aflito por perder as calças, André Ventura encontrou nos suspensórios verbais a metáfora dos seus medos – Ana Gomes é histérica e cigana, Marisa Matias é a candidata marijuana. Há mais uns pré-candidatos à Presidência, mas sendo um homem rijo, de têmpera antiga, preferiu atacar as mulheres. Provavelmente com medo da degenerescência da raça e da mensagem perniciosa que se possa passar às meninas mais corajosas que no futuro queiram ser políticas. Ou, então, receoso que os seus suspensórios cedam.