Tende misericórdia de nós

Há não muito tempo, estava eu a trabalhar, o telefone fixo da clínica tocou.

Normalmente a chamada fica pela recepção. Não por ter prazer nisso, mas sim porque a minha especialidade ainda não permite teleconsulta e eu precisar de observar o paciente para poder chegar a um diagnóstico. Estudei para ver dentes e não para vidente. Estranhei, portanto, quando a assistente me perguntou se eu podia dar uma palavrinha. Não sei que cara de espanto fiz eu, mas recordo-me que ela insistiu com um “é da Santa Casa da Misericórdia”. Gelei! Fiquei sem reação! Seria a confirmação da minha “reforma” do outro lado da linha? Teria acertado nos 5 números e 2 estrelas e quereriam o meu nib para transferir? Sei lá. Não faz sentido, mas foi o que me veio à cabeça. Não tenho culpa! Pedi desculpa a quem estava na cadeira inclinada de boca aberta e deitei então a mão ao telefone e saudei de forma entusiasta o interlocutor. 

Era uma senhora! Apresentou-se como Provedora da SCM da Calheta e representante das demais instituições homónimas cá do ilhéu. Percebi, rapidamente, que estava então a falar com alguém que não me ia dar nada e senti-me defraudado. Tinha idealizado já um futuro brilhante e afinal tinha que me dedicar ao presente. Passei de recém milionário a remediado em menos de dois dedos de conversa. É duro. Muito duro. Nem imaginam. Mas não podia ser deselegante. Perguntei então em que podia ajudar. Ainda pensei que pudesse ser algum caso de dificuldade extrema e que precisassem dos meus serviços. Nada disso! Queria era um pedido de desculpa.

Quem me conhece, sabe que não me custa nada reconhecer um erro. Da mesma forma que não me furto a apontá-los! Mas precisava saber o que de mal tinha feito para me estar a ser pedido que me retratasse com tamanha educação. Sim, porque a maior parte das vezes fazem-no, mas com insultos ao mesmo tempo. Não foi, de todo, o caso. Afinal era sobre um artigo em que tinha escrito que (por outras palavras, mas que não fogem muito a estas nem ao propósito) entre clubes e associações, até Santas Casas tinham contas por regularizar à Empresa de Eletricidade da Madeira. Questionou-me onde tinha ido buscar essa informação pois era falsa e já tinha confirmado com todos (ou muitos, agora não consigo precisar) os colegas. Pedi 2 minutos para poder confirmar nos meus arquivos e lá estava... 189 mil 692 euros e 60 cêntimos do Infantário da Santa Casa da Misericórdia de Machico. Mostrei que, ou lhe estavam a ocultar a verdade, ou eu estava mais por dentro do assunto e enviei o “comprovativo”.

Dei dois minutos para a leitura do mesmo e liguei de volta! Trocámos mais uma ou outra opinião e despedimo-nos com a certeza de que, da minha parte, não sairia nenhum desmentido. Juro, no entanto, que pedi à senhora professora que defendesse a sua honra caso a sentisse beliscada. Não tive conhecimento, até hoje, de que o tivesse feito. A vida continuou, ainda que, com menos uma leitora. Voltei então a poder dar atenção a quem permaneceu estático com o aspirador no canto da boca à espera que a chamada terminasse.

Nunca mais me lembrei disso até que na quarta feira, o JM fez manchete com “Misericórdia da Calheta arrisca devolver fundos”. Uahmãe. Tinha que ler o conteúdo. Aquilo não se faz. A Dra não ia estar nada, nada satisfeita com tamanha desfaçatez. Mas então não é que estava lá escrito que a “presidenta” construiu um centro de saúde na localidade, sustentado, quase na totalidade, por fundos europeus? Até aqui nada de mal, eu sei. Era e é para o bem da população que tanto auxilia. O problema é que depois de estar pronto (e ter custado mais um milhão do que o previsto), desponta uma avaliação de um perito e com base na mesma, a senhora provedora solicitou uma leve subida da renda. De 4500€ para 27 mil. Eitalélé! A senhora não é nada meiga a pedir.

Calminha. Vamos lá ver se nos entendemos... Segundo o Instituto de Desenvolvimento Regional, ou bem receber verbas comunitárias ou bem disparar rendas e tornar o projeto sustentável. As duas é que não. Senão também eu queria. Vá. Veja lá se se decide e resolve isso a bem para não lhe ser exigido um pedido de desculpas.

Entretanto vou tratar das últimas coisas para a escola dos miúdos. Se antigamente já me queixava por ter de forrar os livros e estes ficarem cheios de bolhas... Agora tenho os pequenos para plastificar! Já gastei 7 rolos de película aderente e ainda vou nos joelhos. Ao menos já estão quietos num canto da sala. Valha-me Deus.

Por falar em Deus, e para terminar, há dias passei na Ponte Nova e reparei que onde já foi a sede do União agora é uma igreja cristã de nome “Nosso Rei”. Será que o pastor é o Dr Filipe Silva? Ah se for eu vou lá... Ah vou, vou. Fico até ele começar a pregar “Eu sou o seu pastor, nada ME faltará.” Aí venho embora. Já vi esse filme.