De volta à rotina possível

As férias acabaram. Num ano, tudo menos normal, o stress tem imperado, por tantas mudanças às quais tivemos de nos adaptar. 

Lembro-me que em Fevereiro ia escrever uma crónica sobre o trágico mês de Janeiro que começava assim: “Um pouco por todo o mundo, o passado mês de Janeiro apresentou-se como trágico. Ora se mantinham os incêndios na Austrália, depois, nesse mesmo país as chuvas de granizo com pedras do tamanho de bolas de golfe e também as cheias, os animais mortos e pessoas desalojadas, ora era o avião abatido em Teerão, entretanto o coronavírus aparece na China, alargando fronteiras a mais de uma dezena de países, milhares de infetados e mais de duas centenas de mortos…”, mas decidi não publicar. Olhando agora para trás, o presente ano afigurou-se muito mais trágico do que alguma vez me passou pela cabeça, no início do mesmo.

Creio que ninguém (atrevo-me a falar assim) alguma vez pensou que iriamos passar pela odisseia 2020 e, em Setembro, ainda não sabemos o que nos espera para a frente.

A verdade é que, apesar de todos os problemas de saúde mental, social, financeiro e outros, associados à pandemia, também descobrimos o que nos faz falta e valorizamos pequenas coisas, que julgávamos supérfluas, ou tínhamos como dados adquiridos.

O que me parece ser algo que não era valorizado, mas que faz tanta fala, é a interação social, a interação entre pares. 

Nesta altura, refiro-me em particular às crianças e adolescentes, que retornam à rotina possível no regresso à escola. Apesar de todos os constrangimentos impostos pela necessidade de promover a segurança, da necessidade de mudanças de comportamento na interação com os pares, quer em sala de aula quer nos espaços de lazer, e com os medos e ansiedade naturalmente associados ao desconhecido, acredito que o contacto com os colegas, as brincadeiras possíveis, o barulho característico dos recreios, as correrias, as conversas junto aos pavilhões, fazem falta para o normal desenvolvimento das crianças e adolescentes.

Sei que é difícil passar horas com máscara colocada, sei que é difícil manter o distanciamento social, quando era hábito dar-se um abraço no reencontro do início do ano. Mas sei também que as crianças e adolescentes têm uma capacidade incrível de adaptação, muito mais do que nós, adultos.

É natural a preocupação dos pais (e até de algumas crianças e adolescentes), pois o que vivemos foi assustador e inesperado. Mas mais preocupante seria manter as crianças e adolescentes isolados, interagindo virtualmente, impedindo um normal desenvolvimento psicológico e emocional.

As rotinas, atualmente, são diferentes, o que pode causar estranheza, mas, aos poucos os hábitos vão-se instalando, dando lugar a uma nova rotina. Já não vai ser tão estranho lavar as mãos/desinfetar frequentemente, já não vai ser tão estranho usar máscara de proteção, já não vai ser tão estranho cumprimentar à distância. As crianças e adolescentes habituam-se, e criam as suas próprias rotinas, adequadas à nossa nova realidade. E, entretanto, convivem, desenvolvem-se, enquanto seres sociais, que necessitam de afectos e de interação, que necessitam de socializar.

E desta forma, combatendo o medo e ansiedade associados à realidade imposta, adoptando novos hábitos de convivência saudável com os amigos e colegas, vamos criar crianças e adolescentes mais felizes, mais resilientes, com maior capacidade de compreensão do mundo e dos outros, e com maior responsabilidade sobre si e sobre quem as rodeia.