Cónego Francisco Xavier Ribeiro

Morreu santamente na sua residência no Funchal, rodeado de seus familiares, o quase centenário Cón. Francisco Ribeiro que, na diocese do Funchal serviu 6 bispos, D. António Ribeiro, D. David de Sousa, D. Francisco Santana, Dom Teodoro, D. António Carrilho e D. Nuno, que presidiu às suas exéquias fúnebres.

O Padre Ribeiro exerceu diversas missões na Diocese sempre com grande responsabilidade e espírito diligente e sorridente, até uma missão em Angola (1961-1963) como capelão dos militares portugueses, embora em ambiente de guerra, mas em missão de Paz e Bem.

Em todos os cargos que exerceu, a imagem que mais realçou foi a do Bom Pastor, à semelhança do Santo Cura d’Ars que o diretor espiritual do Seminário apresentava como modelo dos padres diocesanos. Não brilhou por uma inteligência superior, mas por um sorriso de bondade e misericórdia, com o “cheiro das ovelhas” como sugere o Papa Francisco.

Foi sempre fiel às prescrições eclesiásticas antes do Concílio Vaticano II, tendo recebido este com grande entusiasmo e espírito inquieto por uma Igreja aberta às novidades inspiradas pelo Espírito Santo para os nossos tempos, onde a cizânia se mistura, também nesta diocese, com a boa semente.

Estudamos nos mesmos anos, embora ele fosse mais adiantado no curso, no majestoso Seminário da Encarnação, construído sobre a colina mística, pelo bispo D. Manuel Agostinho Barreto, onde, de longa data se combatia a luta entre o bem e o mal, Deus e as forças maçónicas que se apoderaram do sacro edifício, embora o Bispo D. António recuperasse o seminário, para mais tarde ser ocupado pela rapaziada revolucionária do Liceu, conduzida por um padre perturbado. Oh Tempora, oh Mores, diria Cícero (que tempos e costumes!). A vida em nosso tempo de estudo era dura para os alunos e educadores, tempo de guerra, da epidemia da tuberculose, de fome e carestia, de prato de milho quotidiano com um pouco de manteiga no Seminário, das migrações para a Venezuela, África do Sul e Europa, mas que nos tornaram aptos para uma pastoral diocesana ao ritmo dos movimentos da Ação Católica e dos salutares Cursos de Cristandade. Quando fui nomeado Bispo Diocesano, o Padre Ribeiro foi a pessoa encarregada da Sagrada Liturgia na Sé e Mestre de Cerimónias. Foi um dos gloriosos tempos da beleza do serviço divino, dos coros de religiosas e crianças cantoras, do retorno ao canto gregoriano, dos concertos e oratórios do Festival de Bach na Sé. Chegou o tempo de aumentar o restrito número de Cónegos e o Padre Ribeiro foi um dos escolhidos. Ele era uma das figuras da renovada Catedral, tanto no serviço divino como dentro do confessionário. Dentro da sua família sobressaiu o Doutor Romano Santa Clara Gomes que, tendo entrado na política se distinguiu pela sua oratória fácil, eloquente e vibrante, impondo-se como destacado parlamentar, militou intensamente no movimento católico, sendo Presidente do Conselho Central da Conferência de São Vicente de Paulo, da Liga da Ação Católica, Reitor da Confraria do S. Sacramento da Sé e Administrador do hospício da Princesa D. Amélia.

Deus também amparou o Cónego Ribeiro em momentos difíceis, como na morte de um irmão na queda do avião em Santa Cruz, no abandono de alguns sacerdotes, das revoltas contra o Bispo Francisco Santana e condenação do Pe Frederico. Quase durante um século foi sentinela vigilante da vida diocesana, com 91 anos, como o guarda de Isaías perguntava: “Sentinela que resta da noite? Sentinela que resta da noite? A sentinela responde: A manhã vem chegando, mas ainda é noite” ((Is.21,11).