Preconceitos que arrepiam

Num Estado de Direito, as autoridades públicas deveriam garantir a segurança de todos os cidadãos. A população teria, portanto, entre outras situações, de estar livre de ameaças ou agressões, independentemente de quem as perpetrar. Tudo certo, no papel, mas na prática a coisa acaba sempre por se complicar.

Nesta altura, os casos de delinquência, vandalismo e roubos ganham cada vez mais espaço informativo na Madeira e são, é verdade, tema de debate público. Só que em vez de se encontrarem soluções e planos de ação com vista a atenuar esta problemática, deparamo-nos com uma espécie de desresponsabilização de todos os que têm o dever de atuar em torno desta matéria. Aliás, está previsto que a inércia das autoridades pode fundamentar um pedido de indemnização por danos causados aos cidadãos…

Dizer que estamos perante uma questão de índole meramente social, empurrando responsabilidades para outros, é apenas e só uma má desculpa. Roçando, por vezes, o preconceito na abordagem aos menos abonados. Porque convém realçar que nem só de ‘excluídos’ falamos quando reportamos ameaças aos direitos consagrados na Constituição.

Basta atentar para o que aconteceu não há muito tempo no Porto Santo para perceber que os problemas não são da restrita responsabilidade dos que são olhados de lado... Há muito boa gente que terá imenso trabalho pela frente no sentido de mostrar aos seus que a vida é tudo menos fácil e todos pagam por aquilo que fazem. Pelo menos assim deveria ser. O futuro não pode ser repleto de mimos e ofertas.

 

Adeptos de futebol rejeitados

A outro nível, por estes dias parece que é legítima a participação regrada em todos os eventos, desde que não envolvam uma bola, 22 jogadores e três árbitros. Com efeito, o preconceito em torno do adepto de futebol é indisfarçável. E não há vivalma que entenda que um jogo pode também significar um bom convívio familiar, desde que se elimine, como já acontece noutros países, as figuras das claques e adeptos visitantes. Ia ao futebol quem é sócio pagante e seus familiares, com a obrigatória limitação da capacidade dos recintos a ser definida por quem de direito. É assim tão difícil? Avante.

Sem preconceito algum avança a Santa Casa da Misericórdia da Calheta. O novo Centro de Saúde, que já devia ter sido inaugurado há muito, vai finalmente ser colocado ao dispor da população. O atraso, esse, teve a ver com equipamentos e verificações técnicas… Tempo durante o qual foi ‘derramada’ muita tinta em torno de outro assunto, o aumento da renda. Porque a ‘Misericórdia’ decidiu aumentar 22.500 euros a renda mensal, assustando o inquilino, por sinal o Governo Regional, que mesmo estando à espera de pagar mais do que os anteriores 4.500 euros, nunca pensaria, dizemos nós, que a inflação atingisse tamanhos números. Os proveitos seriam tantos que colocariam em risco parte dos fundos europeus que sustentaram a obra. A vida é assim: no negócio não há misericórdia nem amigos.

Amigos que, aliás, andam hoje em dia de telemóvel em punho para fotografar a entrada das crianças na escola. A covid, de facto, mudou tudo. No passado, o registo fotográfico seria invasão de privacidade e daria azo a múltiplas interpretações. Todas negativas. Hoje, vale tudo para ser mais um denunciante.