Habitar a escuridão

Por vários motivos, tenho estado a cruzar-me, nos últimos tempos, com a questão da sociedade da transparência, analisada por Byung-Chul Han, sobretudo no que respeita à opacidade e imprevisibilidade, por assim dizer. A pandemia veio tornar isso ainda mais claro, do meu ponto de vista: temos de saber habitar a escuridão. Mais, temos de procurá-la, na consciência de que somos também (ou será sobretudo?) o que não se vê e não se pode mostrar.

Vivemos numa sociedade com cada vez menos tolerância ao escuro e ao que não controla. Parece que todos temos medo de desligar a luz. Nada existe se não for visto ou, pelo menos, visível.

Por isso, a falta de capacidade de habitar a escuridão revela-se na cada vez menor tolerância ao erro e ao fracasso. O mundo “instagramável” ensina que basta tentar e treinar para obter resultados, como se cada um fosse algum género de máquina programável.

O quotidiano cada vez mais mediatizado em que vivemos no Ocidente tem gerado uma tendência quase imparável de quantificação, metrificação da vida e do mundo, criando a necessidade de ver e ser visto, de ser, parecer e aparecer. Cada vez importa menos o conteúdo, face à forma, e a velha máxima ‘o que os olhos não veem, o coração não sente’ parece ganhar um sentido redobrado a cada dia que passa.

Cansamo-nos depressa nesta era da hipervelocidade, da hiperinformação, da necessidade permanente de outra coisa. Não conseguimos estar a olhar muito tempo para o mesmo sítio, de dar atenção, de ponderar, filtrar, avaliar. Vivemos para reagir, de preferência com veemência, até porque parecemos sempre ser donos da razão.

A pandemia devolveu-nos a perceção de limite. Não estávamos prontos para isso, no frenesim de 2020. Temos diante de nós o desafio de retirar consequências éticas e antropológicas da passagem por esta situação de vulnerabilidade: o que somos, quando chega o fim?

A transformação dos mais vulneráveis em sujeitos dispensáveis é uma das marcas mais negativas (e temo que seja permanente) deste tempo. Por não chorarmos, secamos por dentro, perdemos o rumo.

Urge voltar ao mais fundo de si mesmo, onde habitam novas possibilidades de ser, talvez invisíveis, mas não imaginárias. Sem excesso de holofotes, de imagens e ruídos, é preciso encontrar outros caminhos para que possa ficar “tudo bem”. Demos espaço ao que não se vê e não se ouve, ao que não se pode quantificar, produzir ou consumir. Porque o silêncio cuida do coração.