Uma nova oportunidade

O início de um novo ano letivo gera sempre um misto de euforia e ansiedade. Este ano, dadas as circunstâncias que vivemos, esses sentimentos tenderão a ser mais fortes, mas, com o trabalho de preparação que tem vindo a ser desenvolvido, nos diversos níveis de ensino, tendo em conta a experiência e o conhecimento já adquiridos, neste caso, parece-me apropriada a frase tranquilizadora “vai ficar tudo bem”.

Essa ansiedade revela-se nos mais jovens, porque vão para um novo ano, para novas escolas, porque vão ter novos colegas e professores. Também porque vão testar as opções que fizeram, que podem influenciar o seu futuro. E isso pode ter tanto de fascinante como de assustador. Escolher uma área à qual dedicar parte significativa da vida, uma profissão, pode não ser uma tarefa simples. Nos dias que correm pode ser ainda mais difícil.

Começam por ouvir que têm de estar dispostos a trabalhar em qualquer lado, ao longo das suas vidas, onde as necessidades forem existindo. Essa é uma perspetiva assustadora para a maioria das pessoas. Uma coisa é passar uma temporada sem âncora, mas a perspetiva da incerteza a longo prazo, da insegurança, não é o melhor dos incentivos. Apesar de também ter trilhado esse caminho durante alguns anos, a estudar e a trabalhar, não tenho dúvidas de que não sobrevive em mim qualquer resquício de genes nómadas. A maior parte de nós precisa do sentimento de pertença que só a integração numa comunidade permite satisfazer, precisa de segurança e de um mínimo de previsibilidade.

A formatação do cérebro dos jovens continua, com muitas exigências e pouca esperança, poucos sonhos. Muito esforço e poucas recompensas. Ultimamente, o estímulo mais referido é que a alternativa, não estudar, é pior. Isso é verdade, mas é pouco. É aceitar que falhámos rotundamente.

O meu filho, que vê o momento de tomar grandes decisões aproximar-se velozmente, quis saber, um dia destes, quais são os cursos que têm maior empregabilidade. Respondi indicando algumas áreas de atividade que têm hoje mais procura, mas acrescentei que ninguém sabe quais terão mais sucesso dentro de trinta anos, altura em que estará sensivelmente a meio da sua vida profissional. Basta cingirmo-nos aos últimos dez anos, ou mesmo aos últimos meses, se quisermos ir um pouco mais longe no argumento, para encontrar vários exemplos de áreas que, apesar de parecerem seguras, viram os seus níveis de empregabilidade cair de forma dramática em pouco tempo, de certezas que se esfumaram rapidamente. Também é possível encontrar o inverso, em atividades que foram dadas como mortas, nas quais já se sente falta de profissionais para responder às necessidades do mercado de trabalho.

Para me obrigar a calçar os seus sapatos, o meu filho perguntou-me em seguida qual o curso que escolheria hoje. Eu, um dos afortunados que não tiveram dúvidas sobre o que queriam estudar, respondi-lhe sem pestanejar que escolheria o percurso que me apaixonasse, que me fizesse acordar com vontade de aprender e, depois, de aplicar o conhecimento adquirido durante uma parte significativa da minha vida. Sem ideias formatadas, sem deixar outros pensarem por mim. Não o fazer, disse, seria começar com a certeza de um resultado negativo.

Pragmatista convicto que sou, abro uma exceção neste tema. Um dos campos da vida em que acredito que a paixão deve sobrepor-se a uma suposta razão é este. Com maior ou menor tormenta, maior ou menor adaptação do percurso às circunstâncias, devemos pelo menos ter a certeza de que tudo fizemos para alcançar a felicidade. Cada ano letivo é uma nova oportunidade que os jovens não devem perder. Se assim for, ou se assim foi, também nesta dimensão da vida “vai ficar tudo bem”.