Uma questão de nos darmos ao respeito

Desde muito novo que de vez em quando me cruzo com uma expressão «mulher que quer ser respeitada [porque quase sempre é a mulheres que pretendem que se aplique] tem de se dar ao respeito!». Quem a profere, enche-se de “gravitas” e passa os olhos por quem acaba de ser privilegiado com esta sua pérola de sabedoria como que se aguardando os aplausos silenciosos ou o ocasional assento de cabeça.

Mas o que será isso de ter de dar-se ao respeito? Com o tempo lá fui percebendo que nesse imaginário habita um tipo de mulher que pode ser bonita, mas não em demasia, bem vestida, mas nem demasiado provocante («porque não é dessas»), nem demasiado desinteressante. Modesta, humilde, serena, até pode ter opinião, mas reserva-a principalmente para si ou para um círculo mais íntimo. Mas mesmo aí emite-a de forma ponderada. Nada de reivindicar direitos, de se meter na política, de assumir a sua própria voz, para não parecer «uma daquelas histéricas» e «esganiçadas».

Percebi que o que na realidade querem não é bem uma mulher, é quase uma não-mulher. Querem uma mulher sem vida ou vontade própria, que não escolha o que vestir e quando o fazer, uma mulher que não diga o que pensa e o que lhe faz falta, que não participe ativamente nas decisões de casa, nem da freguesia, do município, da região ou do país. Não querem uma mulher, que sinta e faça sentir, com mais ou menos curvas, mais ou menos rugas, que se apaixone, viva, sonhe. Não querem uma mulher inteira. Querem uma fêmea, reprodutora, assexuada fora de casa. Uma mãe ideal. Outra mãe. Partida e domesticada.

Esta quinta-feira, em Paris, uma mulher foi impedida de entrar num museu porque a mulher que estava à porta achava que o vestido que levava (normalíssimo)tinha um decote demasiado pronunciado. Convidada a vestir um casaco acabou por visitar o museu, cheio de obras de pintura e escultura representando mulheres nuas e de outras visitantes com vestidos sem costas, tops e vestidos curtos, porém um pouco menos voluptuosas.

Na quinta-feira da semana passada, uma mulher foi agredida, esfaqueada, levou com ácido em cima e morreu às mãos do ex-marido, com quem tinha ainda questões em tribunal por violência doméstica, partilha de bens e regulação do poder parental. De seguida, o assassino meteu o filho de dez anos no carro, arrancou para minutos depois se despistar e cair numa ribanceira de 300 metros, pensa-se que de forma propositada, tendo vindo a falecer. Quem contou toda a história aos bombeiros e à polícia foi o filho de 10 anos, que presenciou toda a cena, foi posto dentro do carro que caiu ribanceira abaixo e apesar da gravidade dos ferimentos, sobreviveu.

Estas duas quintas-feiras do século XXI, separadas por uma semana, têm em comum a falta de respeito por duas mulheres que achavam que podiam decidir sobre a sua vida. Duas mulheres que foram desrespeitadas nos seus direitos pessoais em coisas tão vulgares, como o que vestir, ou tão básicas como o direito a viver, sem grilhões.

Em Portugal são assassinadas, em média, duas mulheres por mês, a grande maioria às mãos atuais ou ex-companheiros. Gente que não as respeitou, que não aprendeu no seio da sua família a respeitar a sexualidade das mulheres, as suas escolhas, o seu direito aos afetos, de amarem quem quiserem, o seu direito de serem pessoas de corpo inteiro.

Não há condições prévias para se respeitar as outras pessoas, independentemente de género, etnia, preferência sexual, idade. A nossa Constituição assegura-o ao proibir a discriminação no seu artigo 13º. É verdade, mais do que de Lei é uma questão de Educação. É por isso que precisamos de tratar estas questões de cidadania nas escolas, porque a cidadania não é facultativa e a verdadeira objeção de consciência só pode ser feita em nome próprio.

Porque disso depende a nossa verdadeira Liberdade, eduquemos a sociedade para que, por definição, todas e todos nós nos demos ao respeito, respeitando os direitos de toda a gente, por igual.