Obra inacabada

A Vida poderá ser definida como uma obra inacabada, pois só avançamos quando existe um interesse que a dirija, e esperança que a sustenha.

Se a vida, se encerrasse num momento de plenitude, a partir daí restaria apenas o fim, e a existência iria deambular num marasmo perfeitamente anódino, que precipitaria o fim, pois se a obra estivesse acabada, o que fazer a seguir? Na realidade a vida será sempre um processo inacabado, pois cada vez que algo é construído, que um caminho é seguido, a vida só continua com nova construção, com novo percurso.

Concretizando, até atingir a maioridade os objectivos estão definidos pelos progenitores, o caminho está definido por um objectivo geral imposto socialmente. Depois aparecem os interesses de vida individuais, dependentes de uma óbvia filosofia de vida pessoal, o emprego, as relações pessoais, os bens materiais, os espirituais, a cultura, o ócio, a posição social etc. Filosofia e interesses estes que são dinâmicos ao ponto de se desconstruírem antes da sua concretização, abrindo espaço a novos, pelas boas ou más razões.

A vida só é possível num processo de construção e desconstrução contínua, um processo dinâmico e flexível, muitas vezes incoerente num plano de coerência racional, mas coerente com as dinâmicas vivenciais de crescimento e aprendizagem contínua em que o azimute altera a cada passo. Não a observação de um futuro escorregadio que nos sonega o tempo de vida em inutilidades, pois como sabemos “é-nos concedido tempo mais que suficiente para concretizarmos os grandes feitos” L.Séneca, mas sim um futuro dinâmico em que, em cada estadio se abrem e fecham portas, destinos desaparecem e outros surgem, num processo contínuo de renovação, em que cada fim é um princípio, e cada princípio um fim.

É certo que a experiência de vida não nos capacita “per si” para nada, mas permite subir um patamar na perspectiva que temos da mesma, logo uma visão diferente, mais abrangente de um quadro global, permitindo observar a realidade de forma mais simples, sendo esta mais complexa.

E sim, todos em alguma altura observamos no marasmo a existência, e necessitamos de um input, uma contribuição externa para ganhar ímpeto decisório, não ficarmos à mercê dos elementos, ao sabor da vida, como o proverbio inglês assim o denuncia: “Do not be like the cat who wanted a fish but was afraid to get his paws wet”, pois querer mais e melhor, é-nos inato, sempre o queremos (dependendo da definição individual do mesmo), mas por vezes não passamos à acção, ou o sonho é demasiado elevado, ou a ambição é demasiado curta.

Não será o inconformismo com o “status quo” uma força motriz da vida? ”E vós sabeis que a segurança é a máxima inimiga dos mortais” Hecáte em Macbeth. A vida para ser vivida necessita de interesse, de estímulo, de propósito, e de renovação contínua.

Quantos sonhos morrem, quantos se criam, quantos se renovam, nesta obra inacabada que é a Vida.