Em tempo de (des) Acordo

Numa altura em que se começa a pensar em remediar os (des)acordos do Acordo Ortográfico e foram muitos, vem, penso eu, a talhe de foice, falar, um pouco da origem das palavras da língua portuguesa. Das originais, das importadas, das adaptadas, dos regionalismos e das outras.

Hoje, falar de Língua Mãe, como muitos defendem quando se referem à Língua Portuguesa, é como pretender negar, por exemplo, a influência de um ritmo, um estilo musical, um instrumento, na música de qualquer país. Não foi apenas a influência do agora chamado “mundo global” que modificou, introduziu, alterou importou e exportou termos da Língua. Desde há muito, ainda no tempo em que as caravelas aportaram a novos portos e encontraram novas gentes e até antes, quando as hostes guerreiras dos Afonsos e dos Sanches foram descendo do norte lusitano até aos algarves e conquistando novos povos e terras, que novos termos se intrometeram no falar português e no falar das outras gentes.

Não é por acaso que no Alentejo se chama alcagoita ao amendoim, por sinal uma palavra originária da língua tupi, mãndu’bi dos índios brasileiros, que significa enterrado, no Algarve é ervilhana e em Angola jinguba, do kimbundo.

Outra palavra, esta, por sinal, bastante “picante”, piri-piri, que os navegadores foram buscar ao Brasil, é de origem tupi-guarani e significa, literalmente, região de muito junco. E jindungo, do quimbundo “kidungu” que de Angola, foi apimentar a cozinha portuguesa.

Mas mesmo sem precisar de ir tão longe navegando, como diz Pessoa,  “lágrimas de Portugal”, a Língua Portuguesa aprendeu dos árabes, quem diria, o arroz, o sofá e até as célebres e incomodativas… enxaquecas.

E que dizer de cágado, palavra de origem muito controversa, à qual não convém nada retirar o acento e que, dizem, deve o seu nome à cor da carapaça, semelhante a algo que, aqui, não nos convém mencionar.

E de novo o mar. E os homens que partiram por mares “nunca dantes navegados” e como há mar e mar, há ir e voltar, regressaram, dos “orientes” com novas especiarias nos porões e na gramática. Canela, caril, cravinho ou açafrão das Índias e da China o chá e a chávena e do japão vieram gestos, karaté e judo e divertimento caraoque, e roupa quimono e decorações bonsai ou artes como o origami.

Mas como há mar e mar e ir e ficar, também por lá se ficaram palavras que o Japão fez suas. Arakoru – álcool; furasuku – frasco ou birodo – veludo.

Língua Portuguesa. Língua mãe. Mãe e filha de muitas outras terras e gentes e povos. Língua que veio. E foi. E ficou. Sem dono. Nem patrões. Que se enriqueceu e enriqueceu. Que se mudou e transformou. Que adaptou e adotou. Que bebeu e criou. Que não parou de se refazer. Perfazer. Completar. Ajustar.

Língua viva. Dinâmica. Voz e escrita de milhões que nela e por ela se ligam, ainda que, com o correr dos tempos se mudem os tempos e se mudem as vontades. E os Acordos, ainda que com muitos e justificáveis… (des)Acordos.