As artes como promotoras da saúde e do bem-estar

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Esta definição assume o modelo médico biopsicossocial, holístico, na qual a pessoa é vista como um todo. Este modelo explica como os fatores biológicos (corpo), psicológicos (mente) e sociais são igualmente importantes no funcionamento humano.

Ao longo da história da humanidade, as artes têm tido um papel meritório na saúde, em especial como tratamento complementar de doenças mentais. Por exemplo, a terapia do canto era usada como prática médica no Antigo Egipto, e Hipócrates, considerado o pai da Medicina, utilizava a música nos seus pacientes psiquiátricos, nos “templos de cura” da Grécia (400 A.C).

A arteterapia, ou terapia pela arte, definida como o uso de recursos artísticos/visuais ou expressivos com finalidades terapêuticas, foi desenvolvida no início do século XIX, pelo médico alemão Johann Christian Reil (1759-1813). Este profissional de saúde utilizou sons, desenhos e textos como forma de comunicação dos conteúdos internos, em doentes psiquiátricos. Posteriormente, o psiquiatra e psicanalista suíço Carl Jung (1875-1961) valorizou o “fazer artístico”, uma forma de atividade criativa e integradora da personalidade. É dele a frase “Arte é a expressão mais pura que há para a demonstração do inconsciente de cada um. É a liberdade de expressão, é sensibilidade, criatividade, é vida” (Jung, 1920). De salientar, que a prescrição médica de arteterapia é um complemento aos tratamentos convencionais (farmacológicos) dos pacientes, e não implica a suspensão medicamentosa. 

Os benefícios das artes, e do exercício de qualquer processo criativo, são vários: facilitar a expressão de pensamentos e emoções, reflexão pessoal, relaxamento, diminuição da ansiedade, mudança do foco da atenção para pensamentos e atividades mais agradáveis. O uso da criatividade promove maior autoconfiança, facilidade na resolução de problemas, independência e maturidade emocional. Com os avanços tecnológicos, as neurociências cognitivas, mais concretamente o novo ramo científico da neuroestética (ou neuroartes), têm investigado o efeito da arte no cérebro. Dadas as crescentes evidências científicas dos benefícios das diferentes artes na saúde, estas têm ganho validação e reconhecimento internacional.

A 11 de novembro de 2019, a OMS publicou o primeiro relatório sobre a evidência científica das atividades artísticas na saúde. Este relatório (que inclui uma revisão de 900 estudos científicos) classifica as artes em cinco categorias (performativas, visuais, literatura, cultura e artes digitais) e demonstra que as artes podem ser benéficas no tratamento de patologias físicas e psíquicas, na prevenção da doença e na promoção da saúde e bem-estar de todos.

A consciencialização progressiva deste valor tem desencadeado uma expansão da implementação de programas de artes em saúde e bem-estar, em vários países. É, pois, oportuna e relevante a implementação de mais programas de “Artes na Saúde” em Portugal. “A arte, seja escrever, ler, pintar, desenhar é o exercício, a terapia, a saúde da vida mental…” (Francis Perot).