Não brinco mais ao covid!

Como é que íamos na linha da frente na corrida do cumprimento das regras de combate a este inimigo microscópico e, de repente, descentralizamos as nossas energias e deitamos largas toneladas de esforço e sacrifício no lixo?

Como é que num dia morremos de medo e noutro ele desaparece sem deixar rasto?

Como é que nos atrevemos a facilitar a vida a este monstro?

Como é que deixamos de nos preocupar com a nossa vida e com a vida dos que nos rodeiam?

Será que as pessoas perderam o medo ou preferem “fazer de conta” que o SARS-CoV-2 não existe?

Foram estas as questões que surgiram na minha mente, quando numa destas tardes de agosto regressava a casa depois do trabalho, ao ver estabelecimentos lotados sem as medidas de segurança que foram a nossa bandeira durante dias, ao ver máscaras a protegerem a “palma da mão”, ao ver os habituais convívios em jardins dos nossos queridos idosos, ao ver praias assustadoramente lotadas, ao ver aglomerados em cada esquina, enfim, a ver um dia normal antes desta pandemia.

De um dia para o outro, enquanto o diabo esfrega um olho, mudamos o nosso bom senso, o nosso comportamento e redefinimos os nossos medos e inseguranças. Parece que nos aborrecemos de brincar a esta coisa das medidas de proteção. Parece que o que surge nos nossos televisores relativamente a milhares e milhares de mortes e mais de 19,6 milhões de infetados é uma série de terror da NETFLIX, que não tem qualquer semelhança ou possa vir a ter na nossa pérola do atlântico.

Estamos a desenvolver e a propagar entre nós uma mentalidade errada e perigosa, onde se o outro não se preocupa, eu também não me vou preocupar, se o outro não usa a máscara, eu não vou usar, se o outro não desinfeta as mãos, não o vou fazer também, se os outros promovem grandes ajuntamentos, eu também o posso fazer…

Todo este comportamento desproporcional e desadequado é fortalecido quando somos bombardeados massivamente com estímulos comunicacionais de incentivo ao consumismo e à circulação, por parte de um tecido empresarial angustiado e desesperado, que apenas quer sobreviver.

Se não mudarmos os nossos comportamentos, com a reabertura do aeroporto e a chegada do inverno, acompanhado da gripe sazonal, corremos o risco de criar uma bomba relógio e não termos capacidade de resposta humana e não humana para o resultado da combinação destes fatores inerentes a comportamentos irresponsáveis. Não podemos deitar mais lenha na fogueira, o incêndio já é grande o suficiente!

Vamos enfrentar uma grande crise económica, talvez uma daquelas que nenhum de nós já tenha testemunhado em vida, por isso é necessário que, neste momento, implementemos um conjunto de esforços que sejam alérgicos a comportamentos irresponsáveis, de modo a reduzir as nossas futuras cicatrizes!

O que vem aí não é bom, a crise praticamente ainda vai no momento 0 e já se fazem projeções de níveis desemprego simplesmente arrepiantes! Infelizmente, num médio prazo vamos ter a conviver connosco, lado a lado, aquelas coisas que não tínhamos saudades, como o aumento de impostos, a falta de liquidez, o aumento de juros, despedimentos coletivos, diminuição de taxas de lucro das empresas, entre muitas outras.

Desta forma, temos a obrigação de ser socialmente responsáveis e conscientes já que as nossas atitudes e comportamentos de hoje, vão sem dúvida ter repercussões económicas não só no nosso futuro, mas também no futuro das gerações vindouras.