Hoje já não estarei aqui

Escrevo de Machico, onde corre uma ventania que atravessa a cidade — anterior vila, e única terra na Madeira em que, há poucos anos, se celebrava, urbi et orbi, o 25 de Abril. Nesta «manhã futura», vi alguns aviões, que, ao que parece, deixam de ser aves raras, bem como os turistas que transportam.

Chegaram holandeses (não sei se «frugais») a pedir a chave do alojamento local. Há dias, passei no mercado dos lavradores e havia poucas flores. Encontrar uma prótea-real, que povoa normalmente esse espaço — ou uma «king», como dizia o senhor da banca —, não foi tarefa muito fácil, o que me fez pensar no que aconteceria aos usos e costumes (e não só à economia) da Madeira se o turismo continuasse estagnado durante muito mais tempo. A prótea que procurava é um bom exemplo do que é a Madeira. Começou a cultivar-se na década de 1970 com sementes trazidas da África do Sul, mas agora é indissociável do imaginário madeirense, ainda que menos omnipresente do que a sua conterrânea estrelícia. É preciso ter solo e ambiente propícios às sementes que nos chegam de outras paragens; caso contrário, elas não se adaptarão. Isto vale tanto para a botânica como para as pessoas.

Quem sabe disso são as muitas famílias luso-venezuelanas que se pensa representar, hoje, mais de meio milhão de portugueses e luso-descendentes, sobretudo madeirenses, na Venezuela, consequência da migração atraída durante os períodos gloriosos da produção de petróleo. Abandonando o sonho venezuelano é o título da série de fotografias de José Sarmento Matos cuja reportagem, que acompanha uma família luso-venezuelana na sua peregrinação de regresso à Madeira, ganhou o prémio Estação Imagem 2020. Que se abandona quando deixamos toda uma possibilidade de futuro no presente? Que se nos apresenta quando «regressamos» ao «nosso» país? Os que viveram fora do «seu» país percebem o que significa sentir-se, pelo menos em parte, estrangeiro em todos os lugares, incluindo de onde vimos. Há algo que nos (co)move em tais fotografias, que começam com uma jovem mulher, de pé, num miniautocarro. Ela é a imagem central: a tez morena contrasta com a candura da camisola leve que traz vestida. É uma mulher que vive uma vida (extra)ordinária: apaixona-se, casa-se, mas depois vemo-la também na fila para o consulado português, onde há um halo de luz — prenúncio de uma longa espera(nça)? Vislumbramos um perfil no céu madeirense (se é que o céu aceita ser adjectivado) e a encosta funchalense, a espera e o (con)tacto que chega por interposto ecrã, novamente sombras nas paredes alvas de uma casa, com flores na mesa, ao lado da cama aberta. Entrevê-se a esperança de uma gravidez que alarga o vestido de Verão. A última imagem (talvez a primeira de o resto de uma vida) traz-nos a mesma protagonista num leito de hospital com um bebé no colo. Que a Madeira saiba dar colo a esta família como a mãe saberá dar a este renovado milagre. No passado, a Madeira já provou saber acolher populações em situação de necessidade, como demonstrado no documentário Exílio Atlântico, que recolhe testemunhos de alguns dos cerca de dois mil gibraltinos aportados à Madeira, há oitenta anos, devido à ameaça do exército alemão, e que foi recentemente exibido na RTP.

No final das contas, andamos por esta vida a improvisar. Temos é de saber em que tom os outros tocam para não destoar, como aprendi no concerto de Norberto e Luís Cruz, encerrando a muito interessante semana pedagógica organizada pelo MUDAS (Museu de Arte Contemporânea da Madeira).