Adormecimento do C.S. Marítimo

Se na semana passada falamos de uma época futebolística que passou sem ficar na memória da maioria do universo maritimista pelas melhores razões, foi somente mais uma de aflição, nesta semana falaremos de um dos principais problemas de um clube que durante a maioria dos seus 110 anos se manteve vivo e em parte rebelde para tornar-se em algo amorfo, sem a alma e a chama de antigamente. É a crónica do saudosismo e da ingenuidade, de querer sempre mais para uma rebeldia adormecida.

Ponto prévio, assumo a minha responsabilidade por não ter conseguido travar esse adormecimento e a perda da identidade do clube durante os anos em que por lá servi.

A história do Marítimo confunde-se em parte com a história da Região no século XX, fruto de ter nascido no advento da República e das dificuldades em afirmar-se como igual frente aos clubes do continente, numa primeira fase, e, curiosamente, quando isso acontece é na mesma altura em que a Madeira dá o “boom” no seu desenvolvimento, os paralelismos entre um e outro é algo que daria para uma outra crónica, e com isto quero dizer que não há Marítimo sem Madeira e, acredito, que o contrário também aconteça, ou pelo menos que a Madeira iria ser bem diferente sem o Marítimo.

A grandiosidade do clube a nível nacional conquista-se, numa primeira fase, logo nos primórdios do ‘club’ com a vitória no Campeonato de Portugal em 1926, mas a afirmação na divisão maior do futebol português só acontece no fim dos anos 80, princípio dos anos 90, que coincidem com as primeiras idas de uma equipa não ‘retangular’ às competições europeias e à final da Taça de Portugal. Nesta primeira fase, a fase do ‘caldeirão’, temos uma massa associativa participava, que empolgava a equipa para as vitórias, era o verdadeiro 12º jogador, a mística do Marítimo crescia e desenvolvia-se.

Contudo o crescimento estagnou, fruto disso deve-se aos acontecimentos de 1997 – um capítulo que tem sido alvo de algum revisionismo histórico, que talvez mereça mais atenção pela massa adepta. Mas a estagnação, do ponto de vista da mística, levou ao crescimento do betão e das infraestruturas verde-rubras. Estas infraestruturas permitiram um crescimento sustentado de jovens futebolistas para a formação principal do Marítimo, campeonatos e a afirmação das modalidades amadoras no panorama nacional (inserir o som de um vinil a ser riscado)... Na realidade nada disso aconteceu, apenas serviram de desculpa ou de bode expiatório, se o leitor preferir, para épocas menos positivas.

Com o betão cresceu o afastamento da onda verde-rubra, o esmorecimento do ‘caldeirão’ e a queda da mística do ‘leão do almirante’, mas não pense o leitor que culpo o betão por isso, não. O betão deveria de ter servido para catapultar o Marítimo para outra dimensão, as pessoas que foram responsáveis por isso deveriam de ter cavalgado a onda maritimista para isso e não ter destruído a onda.

Agora está na altura de voltarmos a criar a onda, porque a natureza consegue resgatar o que era seu, e os adeptos do Marítimo conseguem, de certeza, resgatar a… onda.