Paga o justo pelo pecador

É hoje. A partir de hoje, e até data a definir, passa a ser obrigatório o uso de máscara em locais públicos na Madeira. Esta foi uma decisão anunciada pelo Governo Regional na passada terça-feira. Assim, de cima para baixo. Em cima do joelho. Sem mais nem menos. Sem meio termo. Podia ser uma recomendação, mas não. É mesmo uma obrigação.

Neste processo atabalhoado – que coincidiu com um curto período de férias do presidente - não cuidou o Governo de saber se tinha ou não base legal para uma decisão desta natureza. Não teve a sensibilidade de perceber o contexto. Decidiu, está decidido! Porque é assim, porque a covid-19 permite estes desvios democráticos e porque a pandemia do medo deixa governantes sem medo da denúncia pública.
Nesta semana atípica, o mesmo Governo afirmou e recuou com idêntica convicção.
Primeiro não havia multas para quem não usasse máscaras na rua. Depois já havia multas, com valor e tudo: 30 euros.
Primeiro era obrigatório em “todos os espaços públicos”. Depois já não é bem assim. Na serra não é preciso máscara e em alguns locais da praia também não.
Primeiro, todos estavam obrigados. Depois já não. Quem faz exercício está dispensado. Quem tem dificuldades de saúde também está mais ou menos livre da máscara.
Perante tamanha confusão, a solução foi fazer uns desenhos. Ora, toda a gente sabe que só são mandados fazer desenhos quando o povo não entende, ou quando quem sabe não se explica.
E também não são precisos desenhos para se perceber que além do chavão da saúde pública está em causa a defesa da imagem. Da imagem do mesmo Governo que apenas se incomodou com os ajuntamentos sem máscaras dias depois do rali da Calheta. E que impõe o uso da máscara em locais públicos exteriores dias antes do Rali Vinho Madeira. E, assim, sem mais esta nem aquela, apanham uns pelos outros. Paga o justo pelo pecador.
Pelo meio ficam os cidadãos que não sabem bem o que fazer. E ficam os turistas, os que escorraçámos e os que convidámos para voltar ao destino turístico mais seguro do mundo – desde que venham de máscara posta. Pelo meio ficam também os hotéis sem clientes, os restaurantes vazios, as ruas e as lojas às moscas. A economia parada. E o assistencialismo a dominar o mercado.
E fica, ainda, esta estranha forma de mandar: esta quase suspensão da democracia, porque a pandemia, sobretudo a pandemia do medo, permite quase tudo.
Porém, importa refletir no efeito desta governação à vista, seja aqui, no País ou em outros países. Um pouco de atenção ao que vai para lá da agenda do dia mostra que toda a ação governativa está concentrada na pandemia.
Alguém é capaz de condenar esse esforço? Claro que não. Todos queremos uma resposta eficaz, todos queremos soluções, todos defendemos apoios e ajudas a quem precisa.
Mas será possível ver um pouco mais para além das máscaras? Claro que sim.
E a sociedade, o que quer?
A sociedade adora uma boa briga, mesmo que não saiba porquê. É como discutir um jogo de futebol mesmo sem o ter visto.
E, assim, em poucos meses, a maioria dos cidadãos passou a perceber de vírus com a mesma intensidade com que aceitou perder direitos.
Desde março vimos seriamente afetados o direito de circular livremente. De sair de casa. De viajar. De apertar a mão. De abraçar. De visitar idosos. De ir à escola. De ir ao trabalho.
A partir de hoje, até o direito a respirar ao ar livre fica um pouco mais condicionado. E o ‘direito’ do Governo legislar em áreas em que não pode parece ficar mais consagrado.
Enquanto isso, anda quase toda a sociedade entretida a dar palpites sobre a máscara como se tudo isto fosse normal. Não é normal. Nem pode ser isto o novo normal.