O lugar do outro

É impossível fugir à polémica do momento e começo assim abruptamente: se a máscara servisse para se proteger a si próprio, mais do que para proteger os outros, a questão poderia passar simplesmente pelo campo das liberdades individuais. Sendo uma questão do bem público, a questão é mais complexa e remete-nos para um tema fundamental do mundo contemporâneo: o lugar do outro.

Deixo de parte a política partidária para me centrar no mais profundo de cada um. Este é um tempo de compaixão, de “sentir com”, “sofrer com”. Ninguém pode ficar alheio à tragédia que vivemos, não podemos virar a cara para outro lado, dizer “não é comigo”. É com todos. Mesmo.

Temos muito a tendência de quantificar a vida, divinizar os números, saber “o que se ganha com isso”. A compaixão, contudo, é gratuita e está centrada em quem está diante de nós, procura conhecer o que cada um carrega na sua pele e no seu coração. É cada vez mais difícil ser movido pelo coração diante do outro. Não com as nossas ideias, com os nossos preconceitos, os nossos medos, mas pelo amor. Reconhecer o outro como pessoa: é isto que comove quem vê no outro o seu próximo, como ensina a parábola do Bom Samaritano, texto central na definição do que deve ser um cristão – a partir da figura de um “pagão”, curiosamente, capaz de colocar a solidariedade acima dos ritos.

A desumanização do próximo é uma das grandes feridas da pandemia. Quem está ao nosso lado deixou de ser um de nós, um como eu, para ser uma ameaça, um potencial foco de contágio. A perda do contacto, da empatia, do amor, em última instância, terá consequências antropológicas muito para lá da crise de saúde. E para esse mal, não há vacina a não ser a humanização do olhar: nunca deixarmos de ver o outro como nosso semelhante.

É difícil acreditar que vamos construir um futuro melhor quando se leem as caixas de comentários das notícias sobre a Covid-19 (pausa para risos e choros). Houve demasiada ingenuidade, no início da pandemia, em relação ao que a humanidade iria fazer depois de todo este sofrimento inesperado. Como diria Belchior, “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos”.

Permito-me insistir na convicção de que o discurso sobre a “nova normalidade” deve ser, antes de tudo a pergunta sobre o sentido da vida, do que somos e fazemos, das respostas que construímos com o nosso agir. Por nós e por todos.

No final de 2019 escrevia que a ideia de que no futuro poderíamos continuar a viver a nossa vida da maneira como sempre o fizemos era um erro absoluto. Parece que não errei por muito. Forçada ou não pelas circunstâncias extremas, há uma consciência de mudança – tecnológica, antropológica, económica, social, política, ambiental…

Nunca foi tão claro como agora: é preciso mudança para que exista futuro. Comecemos por dentro, para que seja a sério.