Jusqu’ici tout va bien…*

Sob o chapéu das chamadas Ciências Sociais está um vasto número ramos de conhecimento e investigação sobre o comportamento humano. Entre a Sociologia e da Psicologia afirmou-se desde meados do século XX uma nova disciplina batizada como Psicologia Social.

Se, de um modo algo simplista, a Psicologia procura compreender o comportamento humano de forma individual e que a Sociologia estuda as sociedades como um todo, a Psicologia Social situa-se no meio, ou seja dedica-se ao estudo do comportamento individual decorrente das suas interações sociais. Uma definição mais formal é-nos dada por Gordon Allport, em 1954, quando diz que a Psicologia Social tenta «compreender e explicar como os pensamentos, sentimentos e comportamentos individuais são influenciados pela presença concreta, imaginada ou implícita de outras pessoas».

Esta definição surge integrada no seu livro «A Natureza do Preconceito», uma obra de referência da Psicologia Social. Mais de 65 anos depois de ter sido publicado pela primeira vez, continua a ser essencial para podermos conhecer o fenómeno do preconceito e respetiva evolução. O livro é ainda creditado como tendo tido influência decisiva na política norte-americana (e Mundial), no sentido de reduzir o preconceito, nomeadamente no Movimento dos Direitos Civis, nas leis anti segregação e antidiscriminação

Por oposição a vários dos seus antecessores, que defendiam que o contacto entre diferentes grupos poderia aumentar o preconceito e levar a confrontos, Allport defendeu que o contacto e a interação entre grupos aumentam a confiança recíproca e diminui os níveis de confronto e preconceito. Os inúmeros estudos conduzidos daí para cá confirmam-no, independentemente das nacionalidades, etnias, culturas ou religiões dos diversos grupos observados. Pelo contrário, a segregação, que recentemente tem aparecido como bandeira de grupos anti-imigração, nacionalistas ou monoculturalistas, tem efeitos perigosos.

Mas uma das maiores inovações desta obra é a introdução da escala de preconceito de Allport. Se nada for feito, o preconceito tende sempre a crescer e os seus efeitos a agravarem-se. O primeiro nível é o da alocução, que ocorre quando os membros de um grupo criam e propagam uma imagem negativa de um outro grupo de pertença. O discurso de ódio inclui-se neste nível, tal como as anedotas (étnicas, sexistas, homofóbicas, etc…). Embora não seja considerado demasiado perigoso, abre o caminho para os níveis seguintes, mais graves. No segundo tível temos a evitação, que abre caminho ao isolamento social dos membros do grupo exterior, com possibilidade de impacto psicológico. O terceiro nível é o da discriminação, que tem já algumas implicações práticas. As pessoas do grupo alvo da discriminação vêm serem-lhes negadas oportunidades e serviços de modo a criar-lhes dificuldades e impedir que alcancem os seus objetivos pessoais em termos de educação, emprego ou carreira. As primeiras leis antijudaicas de Hitler, as leis de Jim Crow nos EUA ou o Apartheid na África do Sul são bons exemplos desta prática. Nos dois últimos níveis parte-se para a violência. No quarto nível temos os ataques físicos, com agressões aos membros do grupo-alvo e às suas posses, incluindo negócios e casas, que culminam em eventos como o linchamento de negros e italianos nos EUA ou os pogroms e guetização de judeus alemães. Finalmente o quinto nível: o Extermínio organizado de todo um grupo. O genocídio no Ruanda, as limpezas étnicas na Bósnia, o extermínio de judeus na Alemanha e Itália são apenas alguns dos muitos exemplos históricos em que se alcançou este quinto nível.

Por cá assistimos ao crescimento no espaço público do primeiro nível e transição para o segundo, e ao aparecimento de partidos que o assumem. Mas o que me preocupa muito, mesmo mais até do que este agravamento, é a normalização que os partidos até agora democráticos fazem destas forças.

Rui Rio, esta semana, deu um passo nessa direção. Espero que emende rapidamente.

Porque o importante não é a queda. É a aterragem.


*C'est l'histoire d'un homme qui tombe d'un immeuble de 50 étages. Le mec, au fur et à mesure de sa chute, il se répète sans cesse pour se rassurer: " Jusqu'ici tout va bien... Jusqu'ici tout va bien... Jusqu'ici tout va bien. " Mais l'important, c'est pas la chute. C'est l'atterrissage.

Mathieu Kassovitz, 1995, no filme “La Haîne” – Uma sugestão para ver este mês.