Vais criar lodo nas arcas

Quem nunca ficou de molho no mar, na ribeira, num poço ou mesmo em um alguidar de lavar roupa que atire o primeiro calhau. Naquele tempo ter piscina era um luxo da esfera dos sonhos inatingíveis.

Passado o São João e o São Pedro estava inaugurado o Verão. Emigrantes regressavam à terra para patrocinar o arraial do sítio, crianças e adolescentes atiravam os esqueletos acompanhados de gritinhos de felicidade para a poça de água mais próxima.

No meu caso descia todos os dias a pé de onde vivia até o calhau da praia da vila da Ponta do Sol. Chegava por volta das três e meia da tarde e entrava na água para só sair daí a umas duas horas, bem medidas.

Não havia enrocamentos, nem sequer balneários. Havia uma barraca de madeira coberta por palmas e louro e uns chuveiros para evitar a transformação do veraneante em bacalhau seco.

Na babuja, uma rocha suficientemente grande e ergonómica permitia mergulhos seguros, os mais afoitos entre os quais não me incluía, aventuravam-se entre as do cais onde se formavam respeitáveis remoinhos de água. Subir à “pedra” e entrar na gruta junto ao cais eram feitos que, confesso, não gostaria de ver o meu filho concretizar.

Mergulhar em mar de levadia, embrulhada nas ondas, arrastada pelo calhau, nadar para fora e contar sete ondas altas à espera da acalmia e regressar à boleia da água até encalhar qual golfinho transformado em felino a gatinhar pelas pedras era uma imagem tão elegante como um elefante no chá das cinco. E que importava? Foram os melhores verões das nossas vidas.

Se aquela plataforma flutuante a que chamávamos “prancha”, inicialmente composta de bidões de combustível e tábuas de madeira pintadas de azul e branco, falasse teria muitas histórias para contar, mas sobretudo lembrar a ligeireza com que a conseguíamos trepar, sem escada, para lá ficar a observar o ambiente no embalo da ondulação.

Conhecíamos aquela praia um calhau de cada vez, um estrado de cada vez, uma pessoa de cada vez.

Essa praia já não existe, desapareceu há muitos anos fruto de interesses que superaram a barraca de madeira, a rocha ergonómica, a plataforma flutuante. Restam as memórias que todos os que a frequentaram nos anos oitenta e noventa guardam para sempre no seu coração.

– “O teu pai já está à espera para irem para casa”.

– “Só mais um mergulhinho!”

– “Olha que ele diz que se vai embora e vais ter de subir a pé!”

– “Só mais um mergulhinho!…”

– “Pfff, já foi, ficaste para trás…”

–“Ah, sim? Boa! Mais um mergulhinho!…”

– “Ah pequena, sai daí que vais criar lodo nas arcas!”

E ao por do sol, com a pele dos dedos engelhada, saía da água em forma, feliz, só para descobrir que afinal ainda não perdera a boleia para casa.

– “Só mais um mergulhinho!”