Ao Libertador de Pernambuco

Na ausência de outras atividades para praticar na calada da noite, eis que alguns concidadãos nossos decidiram dedicar-se à prática do vandalismo de estátuas no Funchal. A primeira vítima foi o Cristóvão Colombo, um alvo histórico já comum nestas “ações” um pouco por todo o mundo ocidental, onde procuram apagar (certas) pegadas históricas.

Considerando que vivemos numa ilha que foi descoberta por outro navegador da mesma época, pergunto-me se estes ativistas da noite alguma vez pensaram na consequência final do “raciocínio” que apregoam: se Colombo é derrubável, então também nós teremos que abandonar a Madeira por termos despojado terreno da Laurissilva? Se calhar nem devia dar ideias a quem teima em ter uma visão monocromática sobre a História…

Que existam por cá imitadores de tendências globais não é algo surpreendente. Mas a escolha da segunda vítima-estátua é que realmente me fez franzir o sobreolho. Inúmeras vezes passei junto ao seu busto no Jardim Municipal e fixei o epíteto “Libertador de Pernambuco” mas não memorizei o nome. Aliás, confesso que nunca me tinha questionado sobre a vida daquele homem que agora estava em foco devido ao ato de vandalismo: João Fernandes Vieira.

Bastou uma pesquisa na internet para ficar fascinada. Tratou-se de um dos heróis militares da Restauração Pernambucana, cujo empenho foi decisivo para a expulsão dos holandeses de Pernambuco no século XVII. Sabe-se que nasceu em 1610 no Funchal com o nome “Francisco de Ornelas”, filho ilegítimo de Francisco de Ornelas Muniz e uma mulher de condição humilde, provavelmente uma escrava africana. Com somente 10 anos de idade deixa a Madeira, sozinho e por iniciativa própria, e no Brasil assume o seu novo nome.

João Fernandes Vieira começou por trabalhar como assalariado no comércio em Olinda e depois com astúcia e boas ligações conseguiu acumular propriedades rurais, enriqueceu e tornou-se um dos mais importantes senhores-de-engenho de Pernambuco. Em 1644 afastou-se dos holandeses e liderou a Insurreição Pernambucana, vencendo várias batalhas até conseguir a plena Restauração. Como recompensa pelos serviços prestados na guerra foi nomeado Governador da Paraíba, foi Capitão General do Reino de Angola e Superintendente das fortificações do Nordeste do Brasil. Morreu em 1681 em Olinda.

Aos vândalos do busto de João Fernandes Vieira pergunto, o que vos incomoda mais – um madeirense de origem escrava que em vez de ser escravo foi dono de engenhos no Brasil do século XVII ou o mesmo madeirense ter expulso os holandeses de Pernambuco? Era preferível não ter dado o salto para o desconhecido no Brasil, ascendendo muito para além de filho ilegítimo e agarrar as rédeas do seu destino, causando um impacto indelével na própria história do Brasil?

À nascença, João Fernandes Vieira estava destinado a uma vida na pobreza e miséria, e era essa a vida que os vândalos do seu busto teriam preferido que ele seguisse. O seu espírito indomável ditou outro enredo para a sua vida. Esperemos que os mesmos vândalos reconheçam o seu profundo erro e limpem o rasto de destruição que causaram.

 


Sugestão da Semana: Rebobine a programação da RTP2 do passado dia 28/7 para assistir a um documentário ímpar sobre o “Exílio no Atlântico”, que narra a história dos 2000 refugiados Gibraltinos que vieram para a Madeira na 2ª Guerra Mundial.