O material tem sempre razão

Ao deleitar-me com a música da Joana Espadinha, que dá titulo ao seu segundo álbum, dei por mim a deambular mentalmente num solilóquio repetido, o mundo das máscaras que vivemos. Este álbum de indie pop de musicalidade fora do comum, em que a excelência da sonoridade é demonstração clara da competência da produção de Luís Nunes e afirmação de maturidade de uma canta-autora que no calor da sua voz transporta a riqueza das suas palavras, eleva-nos para um estadio de cogitação plena.

Neste momento em que ecoam as palavras de Joana Espadinha, o dito popular nunca fez tanto sentido, na prática técnica do dia-a-dia vai renovando-se, todos crescemos a ouvi-lo e a validá-lo, interessante é no entanto verificar que na realidade este dito se consubstancia num aforismo metafísico para com o ser Humano e sua actividade relacional com o mundo que o rodeia. A criação de máscaras para enfrentar o palco de teatro onde decorre a nossa vida, a máscara que usamos diariamente nas várias vertentes da vida, no trabalho, amigos, casa, são cada uma delas adaptada ao choque com cada uma dessas realidades. A entidade que reside sob essa intrincada sobreposição de máscaras é no entanto sempre a mesma e detentora de uma essência unívoca!

Como despir a máscara, quando esse acto colocar-nos-ia nus perante o mundo, com a fragilidade da nossa essência exposta ou por outro lado com revelação total da nossa real figura. Esse acto temerário só é possível num acto de confiança e cumplicidade ou de provocação. Para quem despimos então a máscara e nos revelamos? Quem tem este poder de penetrar no Eu mais íntimo, mais nosso e que por vezes tão protegido está, em sobre camadas de máscaras que já dificuldade em nos identificarmos temos nós. Quem nos resgata de nós mesmos? Por um lado esse poder reside em quem nos consegue fazer fruir o melhor de nós, os que fazem despertar em nós as possibilidades de sermos nós em todo. Por outro lado nos momentos de crise, ou quando acossados a essência vem ao de cima como na frase genial de Ethan Allen Hawley (O Inverno do nosso descontentamento), quando espicaçado por Marullo seu patrão e negociante sem escrúpulos responde: “A honestidade em mim é um vício”, em que a subversão das circunstâncias o fazem criar uma máscara que lhe é contrária, estranha e que rejeita visceralmente, não obstante o que está a ocorrer.

Quem somos nós afinal? Apenas essência, vontade interior. No final, o material tem sempre razão!