Não te preocupes que não toco a campainha

Pediram-me que escrevesse, mas neste emaranhado de letras soltas e palavras, encontro o vazio em que eu me encontro e tenho a impressão de me ter perdido como numa velha história.

Ontem terminei “Não Matarás”, andei semi-deprimida com aquele conteúdo franquista, mas adorei a estrutura/enredo da obra. Magnífico.

Perdida em frente à estante sem saber por onde começar!

Eu sei que vêm aí umas férias quando as pilhas de livros ao lado da minha cama começam a crescer. Comecei a notar que a construção dessas pilhas facilita as últimas semanas do ano -- o lembrete visual da próxima pausa.

Este verão, como tantos outros não tenho um tema para a leitura que vou fazer: Alguns dos livros da minha lista são livros que li há muito tempo e que quero reler.

Por isso, não te procurarei estes dias. Hibernaste em viagens literárias......
e o xadrez só volta a ter vida à sexta-feira. Entretanto, nas estantes,  os livros conspiram sobre a tua ausência repentina. Como que agitados, mudam de lugar, e tu, absorto na imensidão e emaranhado de letras nem te dás conta.

Tudo isto para avisares que se eu tocar à tua campainha, esta será feita de prolongados silêncios, ou se eu quiser especular para além da tua janela, não encontrarei vestígios da tua sombra. O teu espírito (e corpo) paira sobre outros reinos.

Não te preocupes que não toco a campainha.

Quem te conhece sabe da paixão que tens por livros. E os livros de viagem têm um cantinho especial nas tuas prateleiras. Eles conduzem-te a histórias fascinantes de pessoas que, às mais diversas maneiras, saíram de suas zonas de conforto e se permitiram viver suas verdades, e hoje nos inspiram a também colocar o pé na estrada.

A tua biblioteca é brilhante porque os livros são brilhantes. Portanto, a forma como organizas esses livros não é uma questão pequena - e merece um escrutínio adicional à medida que a tornas maior. A linguagem é louca porque nós o somos. O belo da linguagem é o absurdo da sua mecânica. Tudo é uma metáfora.

Não importa o destino, esse livro que lês, descrito como uma “mala de viagem metafórica”, pede-te que estejas atento aos detalhes, que investigues e coleciones odores e sabores, ruelas ziguezagueadas sem um fim à vista onde te perdes propositadamente.

Não te preocupes que não toco a campainha.

E as cores… sei que não gostas do escuro. Não tens nada de Gótico. Quem sabe talvez até sim,  vou investigar agora... Talvez gostasse mais de ser vampiro… com uma vida tão longa lerias até a Biblioteca de Alexandria!

Mas acordaste no quarto azul. Pairam memórias no ar, recordações daquilo que  perdeste por querer sem o saber. É aí que gostas de estar entre a languidez de um espreguiçar e um olho sobre a leitura que te absorve o sono, sem te dares de conta. O quarto azul da imensidão do mar. É aí que passas a maior parte do teu tempo e deleitas-te ao som de um piano imaginário, mas que tange baixinho, como que com medo de despertar.

Azul céu, pinceladas de azul. Não o azul mar, este comporta-se de vez em quando como um vizinho mal-humorado, esbracejando-se e galgando as rochas sobranceiras, varrendo tudo o que apanha, hospedando personagens suspeitas. Mas a tua atração infindável e inescapável do oceano, combinada com a possibilidade iminente de um retiro por terras de Elena Ferrante, faz deste um momento perfeito para pegares num novo livro,  evocativo e que usa o oceano como pano de fundo misterioso e protagonista, de uma nova leitura.

Mas, não te preocupes que não toco a campainha.